domingo, 9 de maio de 2010

A vida para além das TIC


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 3 de Maio de 2010


Quando, na década de 1940, foram desenvolvidos os primeiros computadores, ninguém imaginava que menos de meio século depois eles revolucionariam o Mundo. Hoje, volvidos cerca de setenta anos, é praticamente impossível pensar numa actividade ou produto cujo desenvolvimento não seja condicionado pelas tecnologias da informação e comunicação (TIC). Com efeito, desde a agricultura à indústria espacial, passando por todas as actividades comerciais, industriais e de serviços, pela moda, pela cultura, pelo ensino e pelo lazer, tudo é afectado por estas tecnologias.

A par do desenvolvimento dos computadores, o desenvolvimento das redes de comunicação por computador e redes de telecomunicações foi, também, um factor de mudança do Mundo. A Internet – inicialmente de carácter experimental e restrito – é agora uma rede à escala global, tornando fáceis e baratas as comunicações que anteriormente eram difíceis e caras, aproximando pessoas e permitindo o acesso a informação de todo o tipo. A dimensão da Internet é de tal ordem que esta interliga não só equipamentos fixos como equipamentos móveis, num número que, em breve, ultrapassará o número de seres humanos no planeta Terra.

A vida parece girar em torno das tecnologias da informação e comunicação. Nasce-se, cresce-se e vive-se imerso nas TIC, definem-se políticas em função das TIC e traçam-se destinos de economias e nações com base em TIC. Dificilmente se contrata alguém que não tenha, pelo menos, conhecimentos básicos de TIC. Dificilmente se concebe o Mundo sem telemóveis, sem Internet, sem computadores, sem Google, Facebook ou YouTube.

Dir-se-á que a extraordinária divulgação e implantação das TIC se deve ao facto de estas aproximarem pessoas e permitirem o acesso um manancial de informação. Em teoria, é verdade. Na prática, está-se muito longe disso. Fala-se menos cara a cara porque se comunica mais através da Internet. Acede-se a grandes volumes de informação, mas facilmente se ignora a realidade que lhes está por detrás. Em muitos casos, comunica-se sem saber com quem, sendo frequentes os casos em que se interage não com pessoas mas sim com programas.

Paradoxalmente, os computadores e a Internet são, cada vez mais, a cortina que impede que realidade e sonho entrem pela janela que nos mostra o Mundo. Não que tenham sido pensados para isso. Não que não nos possam ligar ao que é real e concreto. Não que não possam transportar o engenho e a criatividade a alturas inimagináveis. A questão é que somos humanos e, como tal, cometemos muitos erros antes de usar bem as ferramentas que nós próprios criamos. Temos, afinal, que (re)aprender a utilizar as chamadas novas tecnologias de forma a que estas nos ajudem a desfrutar da vida que existe e se estende muito para além das TIC.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

A arte da Informática


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 19 de Abril de 2010


Não será necessário ser um grande mestre – tal como o foi na arte da guerra o Mestre Sun Tzu ou na arte da estratégia Alexandre Magno – para reconhecer que existem duas aproximações fundamentais para resolver um problema complexo: dividi-lo em sub-problemas mais simples e/ou trabalhá-lo com uma equipa suficientemente forte ao invés de o tentar resolver sozinho. Também na área da Informática estas aproximações são válidas, embora encontremos a cada passo exemplos que nos parecem indicar o contrário.

Um erro comum, muitas vezes confundido com a estratégia de divisão de um problema complexo – os sistemas de informação – em sub-problemas tratáveis, é o da replicação de soluções, normalmente entendida como a repetição de uma mesma ‘receita’ em situações e organizações similares.

Curiosamente, esta abordagem - muito incentivada em programas de financiamento, que favorecem o desenvolvimento e instalação de soluções replicáveis - pode complicar fortemente o problema global. Por um lado, facilita-se uma primeira abordagem para um problema parcelar mas, por outro, as soluções replicadas raramente se integram naturalmente com outras soluções parcelares existentes, até porque não resultam de uma visão abrangente e global dos sistemas de informação nas organizações.

A replicação informática tem, ainda, um outro aspecto extremamente negativo, que é o desperdício de meios materiais (hardware e software) e de meios humanos (gestores de sistemas e redes), que decorre de não se tirar efectivo partido de eficiências colectivas e de economias de escala facilmente conseguidas com as actuais tecnologias da informação e comunicação (TIC).

Um exemplo muito frequente desta situação é o dos serviços de Internet mais comuns, como sejam o correio electrónico ou os serviços Web. Com efeito, muitos são os serviços da administração pública que têm os seus próprios servidores de correio electrónico e de páginas Web – com os consequentes gastos em termos de investimento, funcionamento e manutenção – quando, actualmente, é perfeitamente possível ter servidores que suportem múltiplas entidades, centenas de milhares de contas de correio e largas centenas ou milhares de sítios Web.

No fundo, replicar é pulverizar, em vez de agregar. E é na agregação e integração de soluções - ou seja, na junção de forças e equipas para resolver problemas grandes e complexos - que reside a chave do sucesso das TIC. Os serviços e as soluções devem ser, tanto quanto possível, integrados, agregados e concentrados. A sua utilização, por outro lado, deve ser distribuída, por forma a partilhar soluções, diluir custos e rentabilizar meios.

Em conclusão, a concepção, concretização e exploração de sistemas informáticos é uma actividade que obedece, como muitas outras, a critérios simples de objectividade, razoabilidade e racionalidade. Há que compreender os problemas, analisar requisitos, especificar sistemas, conhecer ferramentas, escolher soluções, colocá-las no terreno e avaliá-las. Deve-se subdividir problemas, partilhar soluções e agregar meios se e quando tal for vantajoso, não perdendo nunca de vista a perspectiva global, indispensável à eficácia dos sistemas de informação. Como diria Mestre Sun, se fosse vivo e se se dedicasse às ‘guerras’ das TIC, é esta a arte da Informática.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Bits, bytes, mega e giga


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 5 de Abril de 2010


Em Português corrente utilizam-se, cada vez mais, alguns termos relacionados com as tecnologias da informação e comunicação. Tal é perfeitamente natural, dado que estas tecnologias entram constantemente pelas nossas vidas, quer queiramos quer não. Apesar disso, muitos termos são utilizados sem que o seu significado exacto seja conhecido pela maioria das pessoas que os utilizam. Aqui fica uma tentativa – mais uma, diria – de clarificar o significado de alguns.

Um ‘bit’ (contracção de binary digit) é a mais elementar unidade de informação processável por equipamentos digitais binários, podendo assumir apenas dois valores lógicos: 0 ou 1. Esta característica facilita enormemente quer o armazenamento, quer o processamento quer, ainda, a transmissão de informação, estando na base do funcionamento de todos os dispositivos digitais.

Normalmente, a informação não é processada com base em bits individuais, mas sim em grupos de 8 bits, designados ‘bytes’. De facto, em muitos casos, processam-se grupos de bytes (2, 4 ou mesmo 8) de cada vez, e não bytes isolados. Naturalmente que, dadas as actuais capacidades de processamento, armazenamento e comunicação dos computadores, os volumes de informação não se podem medir em bits ou bytes mas sim em múltiplos destas entidades básicas.

Quando se fala em velocidades de transmissão – mais correctamente, em débito binário – está a falar-se da quantidade de bits que são transmitidos por unidade de tempo. Neste caso, os prefixos utilizados, como sejam, quilo, mega, giga, tera, etc., têm o mesmo significado que no sistema internacional de unidades. Assim, um quilobit por segundo (1 Kbps) corresponde ao envio/recepção de 1000 bits num segundo, 1 megabit por segundo (1 Mbps) corresponde ao envio/recepção de 1.000.000 de bits num segundo, 1 gigabit por segundo (1 Gbps) a mil milhões de bits num segundo, e 1 terabit por segundo (1Tbps) corresponde a um milhão de milhões, ou seja, um bilião (1.000.000.000.000) de bits por segundo.

Já quando se fala em capacidade de memória, seja ela central ou secundária (isto é, disco, CD, DVD, ou outro), a base é o byte – e não o bit – pois essa é a unidade mínima de leitura ou escrita na memória. Existe, ainda, outra diferença em relação ao caso da transmissão: no caso do armazenamento em memória, os prefixos quilo, mega, giga, tera, etc., não correspondem a 10**3, 10**6, 10**9, 10**12, etc., mas sim à potência de 2 mais próxima dessa quantidade. Assim, 1 Kbyte (abreviado 1 KB) não são 1000 bytes mas sim 1024 bytes, isto é, 2**10 bytes; 1 Mbyte (1 MB) são 1024×1024 bytes, ou seja, 2**20 bytes ou, ainda, 1.048.576 bytes; 1 Gbyte (1 GB) são 1024×1024×1024 bytes, ou seja, 2**30 bytes ou, ainda, 1.073.741.824 bytes; e, por fim, 1 Tbyte (1 TB) são 1024×1024×1024×1024 bytes, ou seja, 2**40 bytes ou, ainda, um bilião, noventa e nove mil e quinhentos e onze milhões, seiscentos e vinte e sete mil e setecentos e setenta e seis bytes.

Com tantos e tão grandes números, dá mesmo vontade de esquecer estes detalhes técnicos, abrir o computador e navegar um pouco na Internet para descontrair. Mas cuidado, pois nem tudo o que se encontra lá está correcto, a começar por certas definições de bits, bytes, mega, giga e outros termos técnicos.

quarta-feira, 24 de março de 2010

A informática do papel


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 22 de Março de 2010


Hoje em dia, a informática é reconhecida por todos como uma ferramenta essencial para a chamada ‘desmaterialização’ de processos. De facto, as tecnologias da informação e comunicação revolucionaram o Mundo e o seu potencial continua, felizmente, longe de estar esgotado. Com a informática consegue-se, para além de poupar árvores, reduzir custos e tornar os processos muito mais leves e eficientes. Meditemos um pouco para ver até que ponto este ‘lugar comum’ pode, afinal, estar longe da verdade.

Quando nos meados da década de 1980 começaram a surgir as primeiras aplicações de escritório electrónico, a promessa do escritório sem papel foi de imediato apregoada: em poucos anos, toda a informação passaria a ser processada pelos computadores. No entanto, volvido um quarto de século, constata-se – para espanto de quem, como o autor destas linhas, testemunhou a promessa inicial – que nunca houve tanto papel nos escritórios, repartições, serviços e empresas como actualmente.

Se a promessa de menos papel não se cumpriu, certamente que outras vantagens houve, nomeadamente em termos de custos: agora, muita informação não chega a ser impressa. É, em parte, verdade. No entanto, em muitos casos o que acontece é que há uma transferência de custos de impressão. Anteriormente, quem produzia a informação imprimia-a, e quem a consumia lia-a já impressa. Agora, quem produz a informação não a imprime, passando esse ónus para quem a consome. Pensemos, por exemplo, nos bilhetes electrónicos ou nos check-in feitos pela Internet. De um simples cartão de embarque passou-se para uma, duas ou três folhas A4 impressas ... pelo cliente.

Mas então toda a agilidade, leveza e eficiência de processos que se tem vindo a anunciar nos últimos anos não será uma vantagem? Caso seja atingida, naturalmente que é. O problema é que em muitos casos a informática é usada para tornar o que era simples mais complexo e pesado. Porque se podem processar muito mais dados, existe a tendência de solicitar todo o tipo de informação. Recentemente, num processo de candidatura, só as instruções para preenchimento das várias dezenas de quadros do formulário estendiam-se por cerca de duzentas páginas, certamente impressas por muitos dos concorrentes. Quantos processos são verdadeiramente simplificados, quer do ponto de vista da entidade que os promove e controla, quer do ponto de vista de quem os utiliza? E quantos passam sem um arquivo em papel e/ou sem uma assinatura? Infelizmente, ainda muito poucos.

Não podemos, no entanto, escamotear que existem progressos notáveis em diversos sectores e inúmeros casos de sucesso. A verdade é que esses progressos e casos de sucesso não foram nem fáceis de atingir nem baratos. É muito mais simples, certamente, deixar que a informática nos conduza a maiores consumos de papel, a maior complexidade dos processos e a um mais apertado ‘espartilho’ para as organizações.

A realidade é que a ‘desmaterialização’ é um processo trabalhoso, difícil de concretizar e com custos que podem ser consideráveis. É, no entanto, um esforço que quer as organizações quer as pessoas têm que fazer, sob pena de ficarmos condenados ao insustentável peso da informática do papel.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O melhor computador


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 8 de Março de 2010


Num mundo cada vez mais digital, no qual os computadores e a informática assumiram um papel de extrema importância para o progresso e o bem estar da Humanidade, difícil de imaginar há apenas duas ou três décadas, é fundamental e, até, perfeitamente natural, que as escolas – desde as básicas às superiores – utilizem e explorem as chamadas novas tecnologias. Afinal de contas, as escolas devem estar na linha da frente no que diz respeito à actualização tecnológica.

De repente, as escolas encheram-se de computadores, quadros interactivos, redes, planos tecnológicos e outras ‘modernices’. Qualquer escola que se preze – sobretudo se quer ficar bem na ‘fotografia’ – tem que apostar nas novas tecnologias. Qualquer aluno que se preze tem que fazer os seus trabalhos em computador, muito bem formatados e impressos em impressora laser a cores.

Curiosamente, li há poucos dias (numa mensagem de correio electrónico que recebi no meu inseparável computador) uma notícia sobre um professor de uma escola que não admite qualquer tipo de equipamento electrónico nas suas aulas, seja ele um computador, um PDA, um telemóvel ou outro qualquer dispositivo. Pensar-se-á que será um professor antiquado, numa qualquer escola retrógrada num obscuro país mas, de facto, trata-se de um dinâmico docente numa conceituada escola nos Estados Unidos da América.

Pois esse professor teve a coragem de assumir que o papel dos professores é insubstituível, que os conhecimentos, espírito critico e experiência de muitos anos são algo que se transmite pessoalmente, que a interacção entre professores e alunos é de primordial importância para a aprendizagem, que a atenção e concentração dos alunos é mais importante do que a distracção e dispersão provocadas por ferramentas tecnológicas mal dominadas por muitos alunos e alguns professores, que nas aulas e em tudo o mais o que é importante é o conteúdo e não a forma, que mais vale um trabalho de uma página escrito à mão que revele raciocínio próprio e ideias sólidas do que um trabalho de vinte ou mais páginas de ‘copy’ e ‘paste’ retirado da Internet.

Mas será, então, errado utilizar as tecnologias da informação e comunicação no ensino? Evidentemente que não. A questão chave é que estas tecnologias são uma ferramenta – importante e indispensável, é certo – mas não um fim em si mesmas. E como ferramentas que são, podem ser bem ou mal utilizadas. Podem ser auxiliares preciosos na descoberta e na aprendizagem, ou podem servir para ofuscar a mente, deslumbrando quem as utiliza e impedindo, dessa forma, que se distinga o que é essencial do que é acessório.

As tecnologias da informação e comunicação têm que ser encaradas, acima de tudo, como uma oportunidade para ensinar melhor. Há, no entanto, que saber escolher os melhores momentos para as utilizar e a melhor forma de tirar partido delas.

Há, sobretudo, que não esquecer que o melhor computador de todos é o cérebro humano e que é esse computador que tem que ser ensinado a pensar, a resolver problemas, a aprender e a inovar. Afinal, esse computador é o único que nunca fica obsoleto e é com ele que os alunos vão trabalhar durante toda a sua vida.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Optar pelas nuvens, com os pés assentes na terra

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 22 de Fevereiro de 2010


Os organismos, entidades e empresas que têm os pés assentes na terra conhecem bem os custos de adquirir e manter infra-estruturas e serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação) com recurso a meios próprios. Para além de equipamento computacional, postos de trabalho, software e serviços, há que ter em atenção que as infra-estruturas de TIC exigem a atenção constante de gestores de sistemas e redes, profissionais especializados que têm a seu cargo a operação, manutenção, monitorização e optimização de todos os sistemas. Funções como a gestão de parques informáticos, gestão de configurações e gestão de segurança informática assumem um papel crítico nas modernas organizações, não podendo ser deixadas ao cuidado de ‘curiosos’ ou amadores, sob pena de se colocar em risco toda a actividade.

O desenvolvimento de tecnologias de rede capazes de funcionarem a elevados débitos (dezenas ou, mesmo, centenas de gigabits por segundo) potenciou que, presentemente, muitos dos serviços de TIC possam ser fornecidos remotamente, o que reduz em muito as necessidades de investimento, de operação e manutenção locais.

Recentemente, o conceito de grid computing – normalmente associado à cooperação de vários servidores interligados entre si, de forma a resolver um problema específico, tipicamente envolvendo cálculo intensivo – foi estendido, daí resultando o conceito de cloud computing. Neste caso, o que se pretende é a utilização de múltiplos recursos computacionais, interligados através da Internet (normalmente representada por uma nuvem, ou cloud) de forma a fornecer serviços aos utilizadores independentemente da sua localização e do dispositivo que estão a utilizar para se ligarem à rede. Os recursos (por exemplo, redes, servidores, espaço de armazenamento, aplicações ou serviços) são partilhados por diversas entidades ou utilizadores, disponibilizados a pedido e geridos com o mínimo de sobrecarga de gestão.

O conceito de cloud computing fornece vários modelos de funcionamento e de utilização de recursos, a saber:
  • Software as a Service (SaaS) – em vez de adquirir e instalar licenças de software para as diversas aplicações nos seus equipamentos, as entidades utilizadoras acedem a essas aplicações através da rede, pagando a sua utilização a um fornecedor de serviço;
  • Platform as a Service (PaaS) – um fornecedor de serviço disponibiliza uma plataforma de software para que as entidades utilizadoras desenvolvam as suas aplicações e as alojem;
  • Infrastructure as a Service (IaaS) – o fornecedor de serviço disponibiliza máquinas virtuais, nas quais as entidades utilizadoras podem instalar o seu próprio software de sistema e software aplicacional.

O paradigma da computação em nuvem é, cada vez mais, aceite e adoptado por organizações modernas, que sabem distinguir entre o que devem fazer elas próprias – porque nisso são especializadas – e o que devem adquirir a outros. É um modelo a ter em conta e a seguir pelas administrações central e local, que teimam em replicar até à exaustão serviços que todos poderiam partilhar, desperdiçando, desta forma, todo um potencial para economias de escala. É caso para dizer que optar pela computação em nuvem é a melhor forma de manter os pés assentes na terra.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Viagens na minha terra

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 8 de Fevereiro de 2010


Não vou falar de viagens em barco a vapor, nem de caminhos-de-ferro nem de estradas de pedra, até porque nem de longe nem de perto posso aspirar ao engenho do nosso ilustre romancista, poeta, dramaturgo e político do século XIX, Almeida Garrett (tão pequeno é o meu engenho, que tenho, até, que lhe pedir emprestado o título de uma sua obra prima). Vou, antes, falar daquilo que as modernas tecnologias podem fazer pelas viagens e pelos viajantes que as empreendem, por forma a mostrar o que por cá há e o que por cá se faz.

O forte desenvolvimento registado em anos recentes em termos de tecnologias da informação e comunicação, em particular nas áreas da Internet, comunicações móveis e convergência das redes de telecomunicações e redes de computadores, possibilita e potencia o desenvolvimento de um vasto leque de aplicações para as chamadas redes de conteúdos ou redes de comunidades.

As tecnologias e equipamentos existentes no mercado estão suficientemente estabilizadas para permitir o desenvolvimento de um conjunto de serviços extremamente inovadores, mesmo quando considerado o panorama internacional, que dêem resposta a um vasto leque de problemas, nos quais claramente se incluem problemas urbanos de grande relevância para as comunidades, abrangendo vertentes como a gestão do espaço público, a acessibilidade e mobilidade urbanas, o comércio electrónico móvel (m-commerce), a cultura e o lazer. Os utilizadores acederão aos serviços quer através de dispositivos móveis (telemóveis, PDAs) quer através de computadores pessoais (desktops, portáteis). Vejamos, no que se segue, alguns exemplo de possíveis serviços.

Agenda cultural – um serviço deste tipo poderá permitir que o utilizador tenha acesso à agenda cultural da cidade ou região, constituída por eventos publicados por um RSS feed. O utilizador poderá pesquisar e navegar pelos eventos/notícias disponíveis, podendo seleccionar um evento e colocá-lo na sua agenda pessoal.

História e monumentos – o serviço poderá alertar um utilizador para a proximidade de um monumento ou marco histórico relevante, à medida que ele se desloca na cidade, povoação ou região, disponibilizando-lhe informações variadas sobre esse ponto de interesse.

Circuitos turísticos – com este serviço será possível, por um lado, que um utilizador obtenha informação sobre circuitos turísticos e, por outro, que o utilizador registe a sua posição durante um passeio e possa analisar o seu trajecto posteriormente; poderá, ainda, assinalar pontos de interesse ao longo do trajecto e adicionar as suas próprias notas ou impressões.

Guia de transportes – um serviço deste tipo possibilitará, por um lado, que um utilizador consulte informação sobre os transportes urbanos (p. ex., linhas existentes, preços, horários) e, por outro, que este obtenha informação sobre quais os transportes a utilizar para viajar entre dois pontos da cidade ou região.

Gastronomia – com um serviço deste tipo será possível que o utilizador procure um restaurante numa lista pré-definida, quer por nome quer por características, seleccione um restaurante, faça uma reserva e armazene essa informação na sua agenda.

São inúmeras as aplicações potenciadas pelas novas tecnologias de comunicação móvel, sendo limitadas apenas pela imaginação. Referiram-se acima, a título de exemplo – e de desafio – apenas cinco possíveis tipos de serviços. Sejam eles um dia concretizados e “viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra”.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital