quinta-feira, 11 de março de 2010

O melhor computador


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 8 de Março de 2010


Num mundo cada vez mais digital, no qual os computadores e a informática assumiram um papel de extrema importância para o progresso e o bem estar da Humanidade, difícil de imaginar há apenas duas ou três décadas, é fundamental e, até, perfeitamente natural, que as escolas – desde as básicas às superiores – utilizem e explorem as chamadas novas tecnologias. Afinal de contas, as escolas devem estar na linha da frente no que diz respeito à actualização tecnológica.

De repente, as escolas encheram-se de computadores, quadros interactivos, redes, planos tecnológicos e outras ‘modernices’. Qualquer escola que se preze – sobretudo se quer ficar bem na ‘fotografia’ – tem que apostar nas novas tecnologias. Qualquer aluno que se preze tem que fazer os seus trabalhos em computador, muito bem formatados e impressos em impressora laser a cores.

Curiosamente, li há poucos dias (numa mensagem de correio electrónico que recebi no meu inseparável computador) uma notícia sobre um professor de uma escola que não admite qualquer tipo de equipamento electrónico nas suas aulas, seja ele um computador, um PDA, um telemóvel ou outro qualquer dispositivo. Pensar-se-á que será um professor antiquado, numa qualquer escola retrógrada num obscuro país mas, de facto, trata-se de um dinâmico docente numa conceituada escola nos Estados Unidos da América.

Pois esse professor teve a coragem de assumir que o papel dos professores é insubstituível, que os conhecimentos, espírito critico e experiência de muitos anos são algo que se transmite pessoalmente, que a interacção entre professores e alunos é de primordial importância para a aprendizagem, que a atenção e concentração dos alunos é mais importante do que a distracção e dispersão provocadas por ferramentas tecnológicas mal dominadas por muitos alunos e alguns professores, que nas aulas e em tudo o mais o que é importante é o conteúdo e não a forma, que mais vale um trabalho de uma página escrito à mão que revele raciocínio próprio e ideias sólidas do que um trabalho de vinte ou mais páginas de ‘copy’ e ‘paste’ retirado da Internet.

Mas será, então, errado utilizar as tecnologias da informação e comunicação no ensino? Evidentemente que não. A questão chave é que estas tecnologias são uma ferramenta – importante e indispensável, é certo – mas não um fim em si mesmas. E como ferramentas que são, podem ser bem ou mal utilizadas. Podem ser auxiliares preciosos na descoberta e na aprendizagem, ou podem servir para ofuscar a mente, deslumbrando quem as utiliza e impedindo, dessa forma, que se distinga o que é essencial do que é acessório.

As tecnologias da informação e comunicação têm que ser encaradas, acima de tudo, como uma oportunidade para ensinar melhor. Há, no entanto, que saber escolher os melhores momentos para as utilizar e a melhor forma de tirar partido delas.

Há, sobretudo, que não esquecer que o melhor computador de todos é o cérebro humano e que é esse computador que tem que ser ensinado a pensar, a resolver problemas, a aprender e a inovar. Afinal, esse computador é o único que nunca fica obsoleto e é com ele que os alunos vão trabalhar durante toda a sua vida.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Optar pelas nuvens, com os pés assentes na terra

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 22 de Fevereiro de 2010


Os organismos, entidades e empresas que têm os pés assentes na terra conhecem bem os custos de adquirir e manter infra-estruturas e serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação) com recurso a meios próprios. Para além de equipamento computacional, postos de trabalho, software e serviços, há que ter em atenção que as infra-estruturas de TIC exigem a atenção constante de gestores de sistemas e redes, profissionais especializados que têm a seu cargo a operação, manutenção, monitorização e optimização de todos os sistemas. Funções como a gestão de parques informáticos, gestão de configurações e gestão de segurança informática assumem um papel crítico nas modernas organizações, não podendo ser deixadas ao cuidado de ‘curiosos’ ou amadores, sob pena de se colocar em risco toda a actividade.

O desenvolvimento de tecnologias de rede capazes de funcionarem a elevados débitos (dezenas ou, mesmo, centenas de gigabits por segundo) potenciou que, presentemente, muitos dos serviços de TIC possam ser fornecidos remotamente, o que reduz em muito as necessidades de investimento, de operação e manutenção locais.

Recentemente, o conceito de grid computing – normalmente associado à cooperação de vários servidores interligados entre si, de forma a resolver um problema específico, tipicamente envolvendo cálculo intensivo – foi estendido, daí resultando o conceito de cloud computing. Neste caso, o que se pretende é a utilização de múltiplos recursos computacionais, interligados através da Internet (normalmente representada por uma nuvem, ou cloud) de forma a fornecer serviços aos utilizadores independentemente da sua localização e do dispositivo que estão a utilizar para se ligarem à rede. Os recursos (por exemplo, redes, servidores, espaço de armazenamento, aplicações ou serviços) são partilhados por diversas entidades ou utilizadores, disponibilizados a pedido e geridos com o mínimo de sobrecarga de gestão.

O conceito de cloud computing fornece vários modelos de funcionamento e de utilização de recursos, a saber:
  • Software as a Service (SaaS) – em vez de adquirir e instalar licenças de software para as diversas aplicações nos seus equipamentos, as entidades utilizadoras acedem a essas aplicações através da rede, pagando a sua utilização a um fornecedor de serviço;
  • Platform as a Service (PaaS) – um fornecedor de serviço disponibiliza uma plataforma de software para que as entidades utilizadoras desenvolvam as suas aplicações e as alojem;
  • Infrastructure as a Service (IaaS) – o fornecedor de serviço disponibiliza máquinas virtuais, nas quais as entidades utilizadoras podem instalar o seu próprio software de sistema e software aplicacional.

O paradigma da computação em nuvem é, cada vez mais, aceite e adoptado por organizações modernas, que sabem distinguir entre o que devem fazer elas próprias – porque nisso são especializadas – e o que devem adquirir a outros. É um modelo a ter em conta e a seguir pelas administrações central e local, que teimam em replicar até à exaustão serviços que todos poderiam partilhar, desperdiçando, desta forma, todo um potencial para economias de escala. É caso para dizer que optar pela computação em nuvem é a melhor forma de manter os pés assentes na terra.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Viagens na minha terra

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 8 de Fevereiro de 2010


Não vou falar de viagens em barco a vapor, nem de caminhos-de-ferro nem de estradas de pedra, até porque nem de longe nem de perto posso aspirar ao engenho do nosso ilustre romancista, poeta, dramaturgo e político do século XIX, Almeida Garrett (tão pequeno é o meu engenho, que tenho, até, que lhe pedir emprestado o título de uma sua obra prima). Vou, antes, falar daquilo que as modernas tecnologias podem fazer pelas viagens e pelos viajantes que as empreendem, por forma a mostrar o que por cá há e o que por cá se faz.

O forte desenvolvimento registado em anos recentes em termos de tecnologias da informação e comunicação, em particular nas áreas da Internet, comunicações móveis e convergência das redes de telecomunicações e redes de computadores, possibilita e potencia o desenvolvimento de um vasto leque de aplicações para as chamadas redes de conteúdos ou redes de comunidades.

As tecnologias e equipamentos existentes no mercado estão suficientemente estabilizadas para permitir o desenvolvimento de um conjunto de serviços extremamente inovadores, mesmo quando considerado o panorama internacional, que dêem resposta a um vasto leque de problemas, nos quais claramente se incluem problemas urbanos de grande relevância para as comunidades, abrangendo vertentes como a gestão do espaço público, a acessibilidade e mobilidade urbanas, o comércio electrónico móvel (m-commerce), a cultura e o lazer. Os utilizadores acederão aos serviços quer através de dispositivos móveis (telemóveis, PDAs) quer através de computadores pessoais (desktops, portáteis). Vejamos, no que se segue, alguns exemplo de possíveis serviços.

Agenda cultural – um serviço deste tipo poderá permitir que o utilizador tenha acesso à agenda cultural da cidade ou região, constituída por eventos publicados por um RSS feed. O utilizador poderá pesquisar e navegar pelos eventos/notícias disponíveis, podendo seleccionar um evento e colocá-lo na sua agenda pessoal.

História e monumentos – o serviço poderá alertar um utilizador para a proximidade de um monumento ou marco histórico relevante, à medida que ele se desloca na cidade, povoação ou região, disponibilizando-lhe informações variadas sobre esse ponto de interesse.

Circuitos turísticos – com este serviço será possível, por um lado, que um utilizador obtenha informação sobre circuitos turísticos e, por outro, que o utilizador registe a sua posição durante um passeio e possa analisar o seu trajecto posteriormente; poderá, ainda, assinalar pontos de interesse ao longo do trajecto e adicionar as suas próprias notas ou impressões.

Guia de transportes – um serviço deste tipo possibilitará, por um lado, que um utilizador consulte informação sobre os transportes urbanos (p. ex., linhas existentes, preços, horários) e, por outro, que este obtenha informação sobre quais os transportes a utilizar para viajar entre dois pontos da cidade ou região.

Gastronomia – com um serviço deste tipo será possível que o utilizador procure um restaurante numa lista pré-definida, quer por nome quer por características, seleccione um restaurante, faça uma reserva e armazene essa informação na sua agenda.

São inúmeras as aplicações potenciadas pelas novas tecnologias de comunicação móvel, sendo limitadas apenas pela imaginação. Referiram-se acima, a título de exemplo – e de desafio – apenas cinco possíveis tipos de serviços. Sejam eles um dia concretizados e “viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra”.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Resultados já ou soluções de futuro?

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 22 de Janeiro de 2010


Nos dias de hoje tudo parece imediato. Nalguns casos, todos apreciamos a capacidade que existe hoje em fazer certas coisas bem e depressa, pois tal está por detrás de muito do desenvolvimento das civilizações. As tecnologias da informação e comunicação são, sem dúvida um dos potenciadores desta mudança revolucionária.

Quantas vezes, no entanto, os maravilhosos resultados imediatos comprometem a adopção de soluções de futuro? Infelizmente, na área do e-government – seja ele local ou não – vezes de mais se privilegia o impacto do imediato em detrimento da modernização consistente e planeada. Analisemos um pouco mais esta questão.

Muitas das iniciativas de modernização a que assistimos hoje estão assentes no pressuposto de que disponibilizando financiamento os resultados aparecem. A dura realidade mostra-nos que tal não é assim.

Primeiro, há que saber direccionar o financiamento para acções e actividades que tenham em vista a criação de condições infra-estruturais, isto é, para acções e actividades que criem a base sobre a qual se vai proceder à modernização. Há, também, que produzir linhas de orientação para o desenvolvimento dessas infra-estruturas – sejam elas físicas (por exemplo, redes, equipamentos, servidores), ou lógicas (por exemplo, sistemas de informação, ambientes aplicacionais) – sob pena de se aumentar a já demasiada elevada ‘entropia’. Tal compete, em grande medida, às entidades financiadoras.

Em seguida, há que apoiar a Administração Pública na definição de projectos concretos, globalmente consistentes e tecnologicamente niveladores, evitando-se assim um Estado a muitas velocidades, onde os que têm mais capacidade técnica e humana se modernizam e os restantes ficam cada vez mais para trás. Tal só conduz a desequilíbrios altamente prejudiciais para as regiões e, consequentemente, para as populações, sendo totalmente injustificado num País tão pequeno como o nosso. Infelizmente, a cultura da ‘competição’ – sempre apregoada como salutar – tem acentuado este efeito pernicioso, conduzindo a que o Estado compita com ele próprio e acentue as desigualdades no seu seio.

Para além disso, há que investir nos recursos humanos, sobretudo em termos de formação. Naturalmente, tem, ainda, que se proceder a um acompanhamento técnico – e não meramente formal ou administrativo – de todos os projectos, assegurando que produzem resultados adequados.

Em resumo, há que definir linhas de acção devidamente estruturadas e coordenadas, elaborar linhas de orientação, promover o nivelamento tecnológico e acompanhar, de um ponto de vista técnico, a execução dos projectos. Tem que se ultrapassar, de uma vez por todas, a cultura dos ‘resultados imediatos a qualquer preço’ e trabalhar para o desenvolvimento e modernização a médio e longo prazo. É isso que é feito nos países mais desenvolvidos, que definem planos e programas a dez ou quinze anos. Naturalmente que tal tem que ser feito envolvendo todos os parceiros relevantes, que incluem a administração central, a administração local e, não menos importante, as cidades e regiões digitais. Só assim se pode consolidar os resultados de hoje e trabalhar todos os dias para um melhor Amanhã.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Conserto de Ano Novo

Artigo de opinião a publicar no diário ‘As Beiras’
em 4 de Janeiro de 2010


Julgará o leitor mais atento que existe um erro ortográfico no título, pois onde está ‘Conserto’ deveria estar ‘Concerto’. No que toca o e-Government local vejamos, no entanto, algumas razões para consertar (arranjar, reparar) alguns dos problemas que o afectam.

Nos últimos anos tem-se registado uma clara mudança, no sentido positivo, no estado de desenvolvimento do e-Government local. A mudança maior é, em meu entender, a mudança de atitude dos decisores e demais agentes da Administração Local, que tem levado a uma forte consciencialização da necessidade de optimizar processos e de prestar serviços aos cidadãos com a maior qualidade possível.

Paradoxalmente, essa maior consciencialização tem levado, em muitos casos, a uma ânsia de maximizar as medidas imediatistas e visíveis, em detrimento de medidas de fundo que levem a uma eficaz reestruturação e modernização. Neste contexto, são implementadas no terreno muitas medidas desgarradas que, a prazo, vão piorar a situação, dado que aumentam o número e complexidade de sistemas e não potenciam a adopção de soluções globais integradas.

Existe, assim, muito trabalho a fazer, que se poderá agrupar em três grandes áreas: infra-estruturas de TIC; sistemas de informação e aplicações; conteúdos e serviços on-line.

As actuais infra-estruturas estão, em geral, mal dimensionadas, deficientemente geridas e razoavelmente inseguras. Nesta vertente há uma claríssima necessidade de definição de uma arquitectura de referência e de recomendações em termos de tipos de soluções a implementar.

O desafio maior é, porventura, na área dos sistemas de informação. Actualmente, a maior parte das autarquias utiliza uma variedade de sistemas de informação parciais, cada um para a sua área ou sector, que não comunicam entre si. Isto leva a todo o tipo de ineficiências, prejudicando fortemente o desempenho e constituindo o maior obstáculo à disponibilização de serviços on-line. A integração dos diversos sistemas de informação parciais é, assim, uma prioridade.

É na área dos conteúdos e serviços on-line que têm ocorrido os maiores desenvolvimentos, especialmente na vertente de conteúdos. Apesar disso, ainda há bastante trabalho a fazer, em particular na selecção e garantia de qualidade dos conteúdos e, sobretudo, no aumento do número de serviços on-line. A este respeito, há que não esquecer que conteúdos em excesso são, por vezes, mais prejudiciais do que benéficos, pois dificultam o acesso à informação verdadeiramente útil. Por outro lado, idealmente, todo e qualquer serviço prestado de forma presencial deveria também poder ser prestado on-line, o que ainda está longe de acontecer.

De notar que muito do trabalho a realizar nas áreas dos sistemas de informação e das infra-estruturas exige meios humanos e financeiros consideráveis e não é, de imediato, visível para o exterior. Tem, por isso, sido evitado pelo poder local. Uma forma de resolver este problema será lançar programas/projectos específicos para o efeito, cujo sucesso não seja medido pela concretização de um número mais ou menos elevado de medidas visíveis para o utilizador, mas sim pela efectiva e quantificada melhoria de sistemas e infra-estruturas. Infelizmente, as actuais iniciativas e modelos de financiamento não têm direccionado o desenvolvimento para estas áreas fundamentais o que, em muitos casos, dificulta seriamente o desempenho, o fornecimento de serviços e a disponibilização de conteúdos. Se tal tivesse acontecido, estaríamos agora a falar de Concertos de Ano Novo e não de um tão necessário Conserto para o Ano de 2010.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Que outro valor mais alto se alevanta

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 14 de Dezembro de 2009


Peguemos num jornal ou revista de economia e, inevitavelmente, nalgum ponto aparece um artigo ou um trecho que se refere a tecnologias da informação e comunicação (TIC). Peguemos num jornal ou revista de informática e, inevitavelmente, encontramos uma referência à economia. Em regra, pensa-se sempre no impacto que desenvolvimentos tecnológicos têm sobre a economia e vice-versa. No entanto, nos dias de hoje, pensar na economia não basta, já “que outro valor mais alto se alevanta”: o futuro do Planeta. As ameaças ao ambiente são, infelizmente, muitas, sendo importante tentar perceber de que forma podem as TIC ajudar na sua preservação.

Essencialmente podemos usar as TIC para três categorias de tarefas: 1) avaliar o ambiente e monitorizar a evolução de parâmetros fundamentais; 2) utilizar de forma mais eficiente os recursos existentes; 3) sensibilizar os cidadãos e divulgar boas práticas.

A primeira categoria de tarefas pode ser efectuada com recurso a redes de sensores, com ou sem fios. Este tipo de redes permite obter em tempo real – e de forma continuada – valores para uma série de parâmetros físicos como, por exemplo, temperatura, pressão, humidade, movimento, concentração de poluentes, etc., à escala de um processo industrial, de uma empresa, de uma cidade, de uma região, de um país ou do Globo. Utilizando redes de sensores acessíveis pela Internet é possível desenvolver e operar aplicações de controlo ambiental a partir de qualquer ponto do mundo, que alimentarão bases de dados e de informação vitais para compreender melhor e acompanhar quaisquer variações ambientais.

Quanto à utilização eficiente de recursos, as TIC podem ajudar de múltiplas formas. Por exemplo, é quase lugar comum dizer que com a informática há uma forte redução do papel em escritórios e organismos públicos e privados. Infelizmente, a prática é bem diferente. Se compararmos os gastos de papel antes e depois da generalização dos meios informáticos, facilmente constatamos que cada vez se gasta mais papel. Nesta matéria há que mudar práticas e legislação que, na maior parte dos casos, obriga, irracionalmente, a que a informação esteja em suporte de papel, mesmo sabendo que o suporte digital é mais duradouro, mais fiável e mais resistente a falsificações. Há, por exemplo, que generalizar a utilização dos mecanismos de assinaturas digitais, que têm já o mesmo valor legal das assinaturas manuscritas. A este respeito pode perguntar-se: quantos actos legais (por exemplo, em notários, tribunais, ministérios ou autarquias) são efectuados com recurso a assinaturas e documentos digitais?

A área na qual as TIC têm, sem margem para dúvida, tido o maior impacto é na sensibilização dos cidadãos. A Internet tem, entre muitos males e bens, o valor inestimável de dar voz aos cidadãos. Hoje em dia, qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdos na Internet. Quer as organizações quer os cidadãos individuais podem ‘fazer-se ouvir’, levando políticos, decisores e governos a actuar. E é de actuação que o planeta Terra precisa, para que possamos, de vez em quando, esquecer a economia, esquecer as TIC e reconhecer, com um sorriso confiante que, como escreveu Fernando Pessoa, “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças”.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Ovelhas não são para mato

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 28 de Novembro de 2009


A informação é, para muitas das actuais organizações, o bem mais precioso. Porque tal facto é verdadeiro também para a Administração Local, tem esta efectuado um forte investimento em serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação), o que parece lógico e adequado. Neste contexto, cada município constitui os seus próprios serviços e correio electrónico, páginas Web, bases de dados, sistemas de informação, etc., com os consequentes gastos em equipamento, software, aplicações, licenciamento, manutenção e recursos humanos.

Será essa a estratégia adequada? Não se estará a confundir informação com serviços informáticos? Competirá às autarquias ‘reinventar a roda’ e ter caras infra-estruturas para assegurar serviços para os quais não estão nem devem estar vocacionadas? Não deverão as autarquias seguir o exemplo de inúmeras entidades empresariais por este Mundo fora, que recorrem a serviços de informática externos, sem prejuízo do total controlo sobre a sua informação?

De uma maneira geral, os profissionais da Administração Local são competentes e empenhados e conhecem bem os pontos fortes e fracos dos mecanismos, procedimentos, processos, sistemas e serviços. No entanto, sem ferramentas adaptadas às necessidades pouco pode ser feito para melhorar a eficiência e a qualidade do trabalho. Por ferramentas adequadas entende-se infra-estruturas de informática e comunicações, software adaptado e capaz de suportar processos optimizados, soluções globais testadas e a funcionar.

Naturalmente que não compete à Administração Local desenvolver essas ferramentas. Apesar disso, são muitas as tentativas para o fazer, inevitavelmente com resultados muito aquém das expectativas ou, até, com total fracasso. O papel da Administração Local nesta matéria deve ser o de definir requisitos, avaliar alternativas existentes, contratar desenvolvimento se não existirem soluções ‘chave na mão’ e supervisionar a sua correcta aplicação no terreno. Também naturalmente, em todos estes processos deve a Administração Local socorrer-se de aconselhamento especializado.

Aqui o papel das regiões digitais pode ser crucial e extremamente benéfico. Para além do aconselhamento especializado, as regiões digitais podem estar na base do fornecimento de soluções globais de serviços comuns de comunicações (por exemplo, soluções de e-mail, Web, etc.), de soluções aplicacionais disponíveis para todos os seus associados (por exemplo, soluções de gestão de processos, de facturação electrónica, de logística, de informação geográfica, de serviços on-line, etc.) e de soluções para disponibilização de conteúdos (por exemplo, plataformas de informação cultural, histórica, turística, etc.). Ao fornecer-se soluções globais e homogéneas, potencia-se a redução de custos por via da utilização eficiente de meios humanos e materiais, a replicação de soluções testadas e, não menos importante, a comunicação dentro de e entre diferentes administrações locais.

Às regiões digitais pode – e deve – deixar-se a espinhosa tarefa do desenvolvimento e fornecimento de soluções informáticas eficazes, libertando as autarquias para as funções para as quais têm vocação e elevada competência. Como diz a sabedoria popular, “ovelhas não são para mato”.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital