Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 8 de Fevereiro de 2010
Não vou falar de viagens em barco a vapor, nem de caminhos-de-ferro nem de estradas de pedra, até porque nem de longe nem de perto posso aspirar ao engenho do nosso ilustre romancista, poeta, dramaturgo e político do século XIX, Almeida Garrett (tão pequeno é o meu engenho, que tenho, até, que lhe pedir emprestado o título de uma sua obra prima). Vou, antes, falar daquilo que as modernas tecnologias podem fazer pelas viagens e pelos viajantes que as empreendem, por forma a mostrar o que por cá há e o que por cá se faz.
O forte desenvolvimento registado em anos recentes em termos de tecnologias da informação e comunicação, em particular nas áreas da Internet, comunicações móveis e convergência das redes de telecomunicações e redes de computadores, possibilita e potencia o desenvolvimento de um vasto leque de aplicações para as chamadas redes de conteúdos ou redes de comunidades.
As tecnologias e equipamentos existentes no mercado estão suficientemente estabilizadas para permitir o desenvolvimento de um conjunto de serviços extremamente inovadores, mesmo quando considerado o panorama internacional, que dêem resposta a um vasto leque de problemas, nos quais claramente se incluem problemas urbanos de grande relevância para as comunidades, abrangendo vertentes como a gestão do espaço público, a acessibilidade e mobilidade urbanas, o comércio electrónico móvel (m-commerce), a cultura e o lazer. Os utilizadores acederão aos serviços quer através de dispositivos móveis (telemóveis, PDAs) quer através de computadores pessoais (desktops, portáteis). Vejamos, no que se segue, alguns exemplo de possíveis serviços.
Agenda cultural – um serviço deste tipo poderá permitir que o utilizador tenha acesso à agenda cultural da cidade ou região, constituída por eventos publicados por um RSS feed. O utilizador poderá pesquisar e navegar pelos eventos/notícias disponíveis, podendo seleccionar um evento e colocá-lo na sua agenda pessoal.
História e monumentos – o serviço poderá alertar um utilizador para a proximidade de um monumento ou marco histórico relevante, à medida que ele se desloca na cidade, povoação ou região, disponibilizando-lhe informações variadas sobre esse ponto de interesse.
Circuitos turísticos – com este serviço será possível, por um lado, que um utilizador obtenha informação sobre circuitos turísticos e, por outro, que o utilizador registe a sua posição durante um passeio e possa analisar o seu trajecto posteriormente; poderá, ainda, assinalar pontos de interesse ao longo do trajecto e adicionar as suas próprias notas ou impressões.
Guia de transportes – um serviço deste tipo possibilitará, por um lado, que um utilizador consulte informação sobre os transportes urbanos (p. ex., linhas existentes, preços, horários) e, por outro, que este obtenha informação sobre quais os transportes a utilizar para viajar entre dois pontos da cidade ou região.
Gastronomia – com um serviço deste tipo será possível que o utilizador procure um restaurante numa lista pré-definida, quer por nome quer por características, seleccione um restaurante, faça uma reserva e armazene essa informação na sua agenda.
São inúmeras as aplicações potenciadas pelas novas tecnologias de comunicação móvel, sendo limitadas apenas pela imaginação. Referiram-se acima, a título de exemplo – e de desafio – apenas cinco possíveis tipos de serviços. Sejam eles um dia concretizados e “viajaremos com muito prazer e com muita utilidade e proveito na nossa boa terra”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
Neste blogue encontrará artigos de opinião sobre: * as tecnologias de informação e comunicação (TIC) * o impacto das TIC nas organizações * as TIC e a administração central e local * as TIC na vida dos cidadãos * as TIC nos mais variados ramos da ciência e sociedade (saúde, ecologia, turismo, comércio, etc.)
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Resultados já ou soluções de futuro?
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 22 de Janeiro de 2010
Nos dias de hoje tudo parece imediato. Nalguns casos, todos apreciamos a capacidade que existe hoje em fazer certas coisas bem e depressa, pois tal está por detrás de muito do desenvolvimento das civilizações. As tecnologias da informação e comunicação são, sem dúvida um dos potenciadores desta mudança revolucionária.
Quantas vezes, no entanto, os maravilhosos resultados imediatos comprometem a adopção de soluções de futuro? Infelizmente, na área do e-government – seja ele local ou não – vezes de mais se privilegia o impacto do imediato em detrimento da modernização consistente e planeada. Analisemos um pouco mais esta questão.
Muitas das iniciativas de modernização a que assistimos hoje estão assentes no pressuposto de que disponibilizando financiamento os resultados aparecem. A dura realidade mostra-nos que tal não é assim.
Primeiro, há que saber direccionar o financiamento para acções e actividades que tenham em vista a criação de condições infra-estruturais, isto é, para acções e actividades que criem a base sobre a qual se vai proceder à modernização. Há, também, que produzir linhas de orientação para o desenvolvimento dessas infra-estruturas – sejam elas físicas (por exemplo, redes, equipamentos, servidores), ou lógicas (por exemplo, sistemas de informação, ambientes aplicacionais) – sob pena de se aumentar a já demasiada elevada ‘entropia’. Tal compete, em grande medida, às entidades financiadoras.
Em seguida, há que apoiar a Administração Pública na definição de projectos concretos, globalmente consistentes e tecnologicamente niveladores, evitando-se assim um Estado a muitas velocidades, onde os que têm mais capacidade técnica e humana se modernizam e os restantes ficam cada vez mais para trás. Tal só conduz a desequilíbrios altamente prejudiciais para as regiões e, consequentemente, para as populações, sendo totalmente injustificado num País tão pequeno como o nosso. Infelizmente, a cultura da ‘competição’ – sempre apregoada como salutar – tem acentuado este efeito pernicioso, conduzindo a que o Estado compita com ele próprio e acentue as desigualdades no seu seio.
Para além disso, há que investir nos recursos humanos, sobretudo em termos de formação. Naturalmente, tem, ainda, que se proceder a um acompanhamento técnico – e não meramente formal ou administrativo – de todos os projectos, assegurando que produzem resultados adequados.
Em resumo, há que definir linhas de acção devidamente estruturadas e coordenadas, elaborar linhas de orientação, promover o nivelamento tecnológico e acompanhar, de um ponto de vista técnico, a execução dos projectos. Tem que se ultrapassar, de uma vez por todas, a cultura dos ‘resultados imediatos a qualquer preço’ e trabalhar para o desenvolvimento e modernização a médio e longo prazo. É isso que é feito nos países mais desenvolvidos, que definem planos e programas a dez ou quinze anos. Naturalmente que tal tem que ser feito envolvendo todos os parceiros relevantes, que incluem a administração central, a administração local e, não menos importante, as cidades e regiões digitais. Só assim se pode consolidar os resultados de hoje e trabalhar todos os dias para um melhor Amanhã.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 22 de Janeiro de 2010
Nos dias de hoje tudo parece imediato. Nalguns casos, todos apreciamos a capacidade que existe hoje em fazer certas coisas bem e depressa, pois tal está por detrás de muito do desenvolvimento das civilizações. As tecnologias da informação e comunicação são, sem dúvida um dos potenciadores desta mudança revolucionária.
Quantas vezes, no entanto, os maravilhosos resultados imediatos comprometem a adopção de soluções de futuro? Infelizmente, na área do e-government – seja ele local ou não – vezes de mais se privilegia o impacto do imediato em detrimento da modernização consistente e planeada. Analisemos um pouco mais esta questão.
Muitas das iniciativas de modernização a que assistimos hoje estão assentes no pressuposto de que disponibilizando financiamento os resultados aparecem. A dura realidade mostra-nos que tal não é assim.
Primeiro, há que saber direccionar o financiamento para acções e actividades que tenham em vista a criação de condições infra-estruturais, isto é, para acções e actividades que criem a base sobre a qual se vai proceder à modernização. Há, também, que produzir linhas de orientação para o desenvolvimento dessas infra-estruturas – sejam elas físicas (por exemplo, redes, equipamentos, servidores), ou lógicas (por exemplo, sistemas de informação, ambientes aplicacionais) – sob pena de se aumentar a já demasiada elevada ‘entropia’. Tal compete, em grande medida, às entidades financiadoras.
Em seguida, há que apoiar a Administração Pública na definição de projectos concretos, globalmente consistentes e tecnologicamente niveladores, evitando-se assim um Estado a muitas velocidades, onde os que têm mais capacidade técnica e humana se modernizam e os restantes ficam cada vez mais para trás. Tal só conduz a desequilíbrios altamente prejudiciais para as regiões e, consequentemente, para as populações, sendo totalmente injustificado num País tão pequeno como o nosso. Infelizmente, a cultura da ‘competição’ – sempre apregoada como salutar – tem acentuado este efeito pernicioso, conduzindo a que o Estado compita com ele próprio e acentue as desigualdades no seu seio.
Para além disso, há que investir nos recursos humanos, sobretudo em termos de formação. Naturalmente, tem, ainda, que se proceder a um acompanhamento técnico – e não meramente formal ou administrativo – de todos os projectos, assegurando que produzem resultados adequados.
Em resumo, há que definir linhas de acção devidamente estruturadas e coordenadas, elaborar linhas de orientação, promover o nivelamento tecnológico e acompanhar, de um ponto de vista técnico, a execução dos projectos. Tem que se ultrapassar, de uma vez por todas, a cultura dos ‘resultados imediatos a qualquer preço’ e trabalhar para o desenvolvimento e modernização a médio e longo prazo. É isso que é feito nos países mais desenvolvidos, que definem planos e programas a dez ou quinze anos. Naturalmente que tal tem que ser feito envolvendo todos os parceiros relevantes, que incluem a administração central, a administração local e, não menos importante, as cidades e regiões digitais. Só assim se pode consolidar os resultados de hoje e trabalhar todos os dias para um melhor Amanhã.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
Conserto de Ano Novo
Artigo de opinião a publicar no diário ‘As Beiras’
em 4 de Janeiro de 2010
Julgará o leitor mais atento que existe um erro ortográfico no título, pois onde está ‘Conserto’ deveria estar ‘Concerto’. No que toca o e-Government local vejamos, no entanto, algumas razões para consertar (arranjar, reparar) alguns dos problemas que o afectam.
Nos últimos anos tem-se registado uma clara mudança, no sentido positivo, no estado de desenvolvimento do e-Government local. A mudança maior é, em meu entender, a mudança de atitude dos decisores e demais agentes da Administração Local, que tem levado a uma forte consciencialização da necessidade de optimizar processos e de prestar serviços aos cidadãos com a maior qualidade possível.
Paradoxalmente, essa maior consciencialização tem levado, em muitos casos, a uma ânsia de maximizar as medidas imediatistas e visíveis, em detrimento de medidas de fundo que levem a uma eficaz reestruturação e modernização. Neste contexto, são implementadas no terreno muitas medidas desgarradas que, a prazo, vão piorar a situação, dado que aumentam o número e complexidade de sistemas e não potenciam a adopção de soluções globais integradas.
Existe, assim, muito trabalho a fazer, que se poderá agrupar em três grandes áreas: infra-estruturas de TIC; sistemas de informação e aplicações; conteúdos e serviços on-line.
As actuais infra-estruturas estão, em geral, mal dimensionadas, deficientemente geridas e razoavelmente inseguras. Nesta vertente há uma claríssima necessidade de definição de uma arquitectura de referência e de recomendações em termos de tipos de soluções a implementar.
O desafio maior é, porventura, na área dos sistemas de informação. Actualmente, a maior parte das autarquias utiliza uma variedade de sistemas de informação parciais, cada um para a sua área ou sector, que não comunicam entre si. Isto leva a todo o tipo de ineficiências, prejudicando fortemente o desempenho e constituindo o maior obstáculo à disponibilização de serviços on-line. A integração dos diversos sistemas de informação parciais é, assim, uma prioridade.
É na área dos conteúdos e serviços on-line que têm ocorrido os maiores desenvolvimentos, especialmente na vertente de conteúdos. Apesar disso, ainda há bastante trabalho a fazer, em particular na selecção e garantia de qualidade dos conteúdos e, sobretudo, no aumento do número de serviços on-line. A este respeito, há que não esquecer que conteúdos em excesso são, por vezes, mais prejudiciais do que benéficos, pois dificultam o acesso à informação verdadeiramente útil. Por outro lado, idealmente, todo e qualquer serviço prestado de forma presencial deveria também poder ser prestado on-line, o que ainda está longe de acontecer.
De notar que muito do trabalho a realizar nas áreas dos sistemas de informação e das infra-estruturas exige meios humanos e financeiros consideráveis e não é, de imediato, visível para o exterior. Tem, por isso, sido evitado pelo poder local. Uma forma de resolver este problema será lançar programas/projectos específicos para o efeito, cujo sucesso não seja medido pela concretização de um número mais ou menos elevado de medidas visíveis para o utilizador, mas sim pela efectiva e quantificada melhoria de sistemas e infra-estruturas. Infelizmente, as actuais iniciativas e modelos de financiamento não têm direccionado o desenvolvimento para estas áreas fundamentais o que, em muitos casos, dificulta seriamente o desempenho, o fornecimento de serviços e a disponibilização de conteúdos. Se tal tivesse acontecido, estaríamos agora a falar de Concertos de Ano Novo e não de um tão necessário Conserto para o Ano de 2010.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 4 de Janeiro de 2010
Julgará o leitor mais atento que existe um erro ortográfico no título, pois onde está ‘Conserto’ deveria estar ‘Concerto’. No que toca o e-Government local vejamos, no entanto, algumas razões para consertar (arranjar, reparar) alguns dos problemas que o afectam.
Nos últimos anos tem-se registado uma clara mudança, no sentido positivo, no estado de desenvolvimento do e-Government local. A mudança maior é, em meu entender, a mudança de atitude dos decisores e demais agentes da Administração Local, que tem levado a uma forte consciencialização da necessidade de optimizar processos e de prestar serviços aos cidadãos com a maior qualidade possível.
Paradoxalmente, essa maior consciencialização tem levado, em muitos casos, a uma ânsia de maximizar as medidas imediatistas e visíveis, em detrimento de medidas de fundo que levem a uma eficaz reestruturação e modernização. Neste contexto, são implementadas no terreno muitas medidas desgarradas que, a prazo, vão piorar a situação, dado que aumentam o número e complexidade de sistemas e não potenciam a adopção de soluções globais integradas.
Existe, assim, muito trabalho a fazer, que se poderá agrupar em três grandes áreas: infra-estruturas de TIC; sistemas de informação e aplicações; conteúdos e serviços on-line.
As actuais infra-estruturas estão, em geral, mal dimensionadas, deficientemente geridas e razoavelmente inseguras. Nesta vertente há uma claríssima necessidade de definição de uma arquitectura de referência e de recomendações em termos de tipos de soluções a implementar.
O desafio maior é, porventura, na área dos sistemas de informação. Actualmente, a maior parte das autarquias utiliza uma variedade de sistemas de informação parciais, cada um para a sua área ou sector, que não comunicam entre si. Isto leva a todo o tipo de ineficiências, prejudicando fortemente o desempenho e constituindo o maior obstáculo à disponibilização de serviços on-line. A integração dos diversos sistemas de informação parciais é, assim, uma prioridade.
É na área dos conteúdos e serviços on-line que têm ocorrido os maiores desenvolvimentos, especialmente na vertente de conteúdos. Apesar disso, ainda há bastante trabalho a fazer, em particular na selecção e garantia de qualidade dos conteúdos e, sobretudo, no aumento do número de serviços on-line. A este respeito, há que não esquecer que conteúdos em excesso são, por vezes, mais prejudiciais do que benéficos, pois dificultam o acesso à informação verdadeiramente útil. Por outro lado, idealmente, todo e qualquer serviço prestado de forma presencial deveria também poder ser prestado on-line, o que ainda está longe de acontecer.
De notar que muito do trabalho a realizar nas áreas dos sistemas de informação e das infra-estruturas exige meios humanos e financeiros consideráveis e não é, de imediato, visível para o exterior. Tem, por isso, sido evitado pelo poder local. Uma forma de resolver este problema será lançar programas/projectos específicos para o efeito, cujo sucesso não seja medido pela concretização de um número mais ou menos elevado de medidas visíveis para o utilizador, mas sim pela efectiva e quantificada melhoria de sistemas e infra-estruturas. Infelizmente, as actuais iniciativas e modelos de financiamento não têm direccionado o desenvolvimento para estas áreas fundamentais o que, em muitos casos, dificulta seriamente o desempenho, o fornecimento de serviços e a disponibilização de conteúdos. Se tal tivesse acontecido, estaríamos agora a falar de Concertos de Ano Novo e não de um tão necessário Conserto para o Ano de 2010.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
Que outro valor mais alto se alevanta
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 14 de Dezembro de 2009
Peguemos num jornal ou revista de economia e, inevitavelmente, nalgum ponto aparece um artigo ou um trecho que se refere a tecnologias da informação e comunicação (TIC). Peguemos num jornal ou revista de informática e, inevitavelmente, encontramos uma referência à economia. Em regra, pensa-se sempre no impacto que desenvolvimentos tecnológicos têm sobre a economia e vice-versa. No entanto, nos dias de hoje, pensar na economia não basta, já “que outro valor mais alto se alevanta”: o futuro do Planeta. As ameaças ao ambiente são, infelizmente, muitas, sendo importante tentar perceber de que forma podem as TIC ajudar na sua preservação.
Essencialmente podemos usar as TIC para três categorias de tarefas: 1) avaliar o ambiente e monitorizar a evolução de parâmetros fundamentais; 2) utilizar de forma mais eficiente os recursos existentes; 3) sensibilizar os cidadãos e divulgar boas práticas.
A primeira categoria de tarefas pode ser efectuada com recurso a redes de sensores, com ou sem fios. Este tipo de redes permite obter em tempo real – e de forma continuada – valores para uma série de parâmetros físicos como, por exemplo, temperatura, pressão, humidade, movimento, concentração de poluentes, etc., à escala de um processo industrial, de uma empresa, de uma cidade, de uma região, de um país ou do Globo. Utilizando redes de sensores acessíveis pela Internet é possível desenvolver e operar aplicações de controlo ambiental a partir de qualquer ponto do mundo, que alimentarão bases de dados e de informação vitais para compreender melhor e acompanhar quaisquer variações ambientais.
Quanto à utilização eficiente de recursos, as TIC podem ajudar de múltiplas formas. Por exemplo, é quase lugar comum dizer que com a informática há uma forte redução do papel em escritórios e organismos públicos e privados. Infelizmente, a prática é bem diferente. Se compararmos os gastos de papel antes e depois da generalização dos meios informáticos, facilmente constatamos que cada vez se gasta mais papel. Nesta matéria há que mudar práticas e legislação que, na maior parte dos casos, obriga, irracionalmente, a que a informação esteja em suporte de papel, mesmo sabendo que o suporte digital é mais duradouro, mais fiável e mais resistente a falsificações. Há, por exemplo, que generalizar a utilização dos mecanismos de assinaturas digitais, que têm já o mesmo valor legal das assinaturas manuscritas. A este respeito pode perguntar-se: quantos actos legais (por exemplo, em notários, tribunais, ministérios ou autarquias) são efectuados com recurso a assinaturas e documentos digitais?
A área na qual as TIC têm, sem margem para dúvida, tido o maior impacto é na sensibilização dos cidadãos. A Internet tem, entre muitos males e bens, o valor inestimável de dar voz aos cidadãos. Hoje em dia, qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdos na Internet. Quer as organizações quer os cidadãos individuais podem ‘fazer-se ouvir’, levando políticos, decisores e governos a actuar. E é de actuação que o planeta Terra precisa, para que possamos, de vez em quando, esquecer a economia, esquecer as TIC e reconhecer, com um sorriso confiante que, como escreveu Fernando Pessoa, “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 14 de Dezembro de 2009
Peguemos num jornal ou revista de economia e, inevitavelmente, nalgum ponto aparece um artigo ou um trecho que se refere a tecnologias da informação e comunicação (TIC). Peguemos num jornal ou revista de informática e, inevitavelmente, encontramos uma referência à economia. Em regra, pensa-se sempre no impacto que desenvolvimentos tecnológicos têm sobre a economia e vice-versa. No entanto, nos dias de hoje, pensar na economia não basta, já “que outro valor mais alto se alevanta”: o futuro do Planeta. As ameaças ao ambiente são, infelizmente, muitas, sendo importante tentar perceber de que forma podem as TIC ajudar na sua preservação.
Essencialmente podemos usar as TIC para três categorias de tarefas: 1) avaliar o ambiente e monitorizar a evolução de parâmetros fundamentais; 2) utilizar de forma mais eficiente os recursos existentes; 3) sensibilizar os cidadãos e divulgar boas práticas.
A primeira categoria de tarefas pode ser efectuada com recurso a redes de sensores, com ou sem fios. Este tipo de redes permite obter em tempo real – e de forma continuada – valores para uma série de parâmetros físicos como, por exemplo, temperatura, pressão, humidade, movimento, concentração de poluentes, etc., à escala de um processo industrial, de uma empresa, de uma cidade, de uma região, de um país ou do Globo. Utilizando redes de sensores acessíveis pela Internet é possível desenvolver e operar aplicações de controlo ambiental a partir de qualquer ponto do mundo, que alimentarão bases de dados e de informação vitais para compreender melhor e acompanhar quaisquer variações ambientais.
Quanto à utilização eficiente de recursos, as TIC podem ajudar de múltiplas formas. Por exemplo, é quase lugar comum dizer que com a informática há uma forte redução do papel em escritórios e organismos públicos e privados. Infelizmente, a prática é bem diferente. Se compararmos os gastos de papel antes e depois da generalização dos meios informáticos, facilmente constatamos que cada vez se gasta mais papel. Nesta matéria há que mudar práticas e legislação que, na maior parte dos casos, obriga, irracionalmente, a que a informação esteja em suporte de papel, mesmo sabendo que o suporte digital é mais duradouro, mais fiável e mais resistente a falsificações. Há, por exemplo, que generalizar a utilização dos mecanismos de assinaturas digitais, que têm já o mesmo valor legal das assinaturas manuscritas. A este respeito pode perguntar-se: quantos actos legais (por exemplo, em notários, tribunais, ministérios ou autarquias) são efectuados com recurso a assinaturas e documentos digitais?
A área na qual as TIC têm, sem margem para dúvida, tido o maior impacto é na sensibilização dos cidadãos. A Internet tem, entre muitos males e bens, o valor inestimável de dar voz aos cidadãos. Hoje em dia, qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdos na Internet. Quer as organizações quer os cidadãos individuais podem ‘fazer-se ouvir’, levando políticos, decisores e governos a actuar. E é de actuação que o planeta Terra precisa, para que possamos, de vez em quando, esquecer a economia, esquecer as TIC e reconhecer, com um sorriso confiante que, como escreveu Fernando Pessoa, “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
Ovelhas não são para mato
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 28 de Novembro de 2009
A informação é, para muitas das actuais organizações, o bem mais precioso. Porque tal facto é verdadeiro também para a Administração Local, tem esta efectuado um forte investimento em serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação), o que parece lógico e adequado. Neste contexto, cada município constitui os seus próprios serviços e correio electrónico, páginas Web, bases de dados, sistemas de informação, etc., com os consequentes gastos em equipamento, software, aplicações, licenciamento, manutenção e recursos humanos.
Será essa a estratégia adequada? Não se estará a confundir informação com serviços informáticos? Competirá às autarquias ‘reinventar a roda’ e ter caras infra-estruturas para assegurar serviços para os quais não estão nem devem estar vocacionadas? Não deverão as autarquias seguir o exemplo de inúmeras entidades empresariais por este Mundo fora, que recorrem a serviços de informática externos, sem prejuízo do total controlo sobre a sua informação?
De uma maneira geral, os profissionais da Administração Local são competentes e empenhados e conhecem bem os pontos fortes e fracos dos mecanismos, procedimentos, processos, sistemas e serviços. No entanto, sem ferramentas adaptadas às necessidades pouco pode ser feito para melhorar a eficiência e a qualidade do trabalho. Por ferramentas adequadas entende-se infra-estruturas de informática e comunicações, software adaptado e capaz de suportar processos optimizados, soluções globais testadas e a funcionar.
Naturalmente que não compete à Administração Local desenvolver essas ferramentas. Apesar disso, são muitas as tentativas para o fazer, inevitavelmente com resultados muito aquém das expectativas ou, até, com total fracasso. O papel da Administração Local nesta matéria deve ser o de definir requisitos, avaliar alternativas existentes, contratar desenvolvimento se não existirem soluções ‘chave na mão’ e supervisionar a sua correcta aplicação no terreno. Também naturalmente, em todos estes processos deve a Administração Local socorrer-se de aconselhamento especializado.
Aqui o papel das regiões digitais pode ser crucial e extremamente benéfico. Para além do aconselhamento especializado, as regiões digitais podem estar na base do fornecimento de soluções globais de serviços comuns de comunicações (por exemplo, soluções de e-mail, Web, etc.), de soluções aplicacionais disponíveis para todos os seus associados (por exemplo, soluções de gestão de processos, de facturação electrónica, de logística, de informação geográfica, de serviços on-line, etc.) e de soluções para disponibilização de conteúdos (por exemplo, plataformas de informação cultural, histórica, turística, etc.). Ao fornecer-se soluções globais e homogéneas, potencia-se a redução de custos por via da utilização eficiente de meios humanos e materiais, a replicação de soluções testadas e, não menos importante, a comunicação dentro de e entre diferentes administrações locais.
Às regiões digitais pode – e deve – deixar-se a espinhosa tarefa do desenvolvimento e fornecimento de soluções informáticas eficazes, libertando as autarquias para as funções para as quais têm vocação e elevada competência. Como diz a sabedoria popular, “ovelhas não são para mato”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 28 de Novembro de 2009
A informação é, para muitas das actuais organizações, o bem mais precioso. Porque tal facto é verdadeiro também para a Administração Local, tem esta efectuado um forte investimento em serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação), o que parece lógico e adequado. Neste contexto, cada município constitui os seus próprios serviços e correio electrónico, páginas Web, bases de dados, sistemas de informação, etc., com os consequentes gastos em equipamento, software, aplicações, licenciamento, manutenção e recursos humanos.
Será essa a estratégia adequada? Não se estará a confundir informação com serviços informáticos? Competirá às autarquias ‘reinventar a roda’ e ter caras infra-estruturas para assegurar serviços para os quais não estão nem devem estar vocacionadas? Não deverão as autarquias seguir o exemplo de inúmeras entidades empresariais por este Mundo fora, que recorrem a serviços de informática externos, sem prejuízo do total controlo sobre a sua informação?
De uma maneira geral, os profissionais da Administração Local são competentes e empenhados e conhecem bem os pontos fortes e fracos dos mecanismos, procedimentos, processos, sistemas e serviços. No entanto, sem ferramentas adaptadas às necessidades pouco pode ser feito para melhorar a eficiência e a qualidade do trabalho. Por ferramentas adequadas entende-se infra-estruturas de informática e comunicações, software adaptado e capaz de suportar processos optimizados, soluções globais testadas e a funcionar.
Naturalmente que não compete à Administração Local desenvolver essas ferramentas. Apesar disso, são muitas as tentativas para o fazer, inevitavelmente com resultados muito aquém das expectativas ou, até, com total fracasso. O papel da Administração Local nesta matéria deve ser o de definir requisitos, avaliar alternativas existentes, contratar desenvolvimento se não existirem soluções ‘chave na mão’ e supervisionar a sua correcta aplicação no terreno. Também naturalmente, em todos estes processos deve a Administração Local socorrer-se de aconselhamento especializado.
Aqui o papel das regiões digitais pode ser crucial e extremamente benéfico. Para além do aconselhamento especializado, as regiões digitais podem estar na base do fornecimento de soluções globais de serviços comuns de comunicações (por exemplo, soluções de e-mail, Web, etc.), de soluções aplicacionais disponíveis para todos os seus associados (por exemplo, soluções de gestão de processos, de facturação electrónica, de logística, de informação geográfica, de serviços on-line, etc.) e de soluções para disponibilização de conteúdos (por exemplo, plataformas de informação cultural, histórica, turística, etc.). Ao fornecer-se soluções globais e homogéneas, potencia-se a redução de custos por via da utilização eficiente de meios humanos e materiais, a replicação de soluções testadas e, não menos importante, a comunicação dentro de e entre diferentes administrações locais.
Às regiões digitais pode – e deve – deixar-se a espinhosa tarefa do desenvolvimento e fornecimento de soluções informáticas eficazes, libertando as autarquias para as funções para as quais têm vocação e elevada competência. Como diz a sabedoria popular, “ovelhas não são para mato”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
O lado complexo do Simplex
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 13 de Novembro de 2009
Nos últimos anos temos sido bombardeados com um novo conceito: o Simplex. A força do neologismo parece funcionar como panaceia para muitos dos males da Administração Pública e não só (fala-se já de Simplex para a Ciência). Concentremo-nos no Simplex Autárquico e tentemos analisar objectivamente em que consiste.
A visão estratégica integrada subjacente ao programa Simplex Autárquico é adequada, compreendendo a optimização do funcionamento interno dos serviços municipais, a melhoria da qualidade dos serviços prestados aos munícipes, a promoção de uma melhor interacção entre diferentes administrações públicas e, ainda, a melhoria da transparência das actividades das autarquias.
Infelizmente, definir uma visão estratégica é apenas o primeiro passo para atingir objectivos, faltando, depois, a concretização que os permite alcançar.
As quase trezentas medidas definidas no programa de 2009/2010 do Simplex Autárquico têm naturezas distintas, dependendo da sua abrangência. As medidas inter-sectorias e inter-municipais são, de uma maneira geral, uma lista de funcionalidade desejáveis, umas em fase de levantamento de requisitos, outras em fase de projecto piloto e, a maioria, muito longe de uma concretização devido à sua complexidade. Deste ponto de vista, poder-se-ia dizer que o Simplex é, afinal, Complex, não porque pretenda complicar processos mas porque a sua efectiva implementação no terreno está longe de ser trivial. Quanto às mais de duas centenas e meia de medidas municipais são, salvo raras excepções, medidas desgarradas, pontuais, não integradas numa visão global de sistema de informação autárquico que, no imediato, exploram potencialidades isoladas das tecnologias de informação e comunicação, mas não resolvem problemas de fundo.
Nota-se, claramente, que a preocupação de muitos intervenientes no Simplex é a de mostrar que ‘há coisas a mexer’, essencialmente recorrendo à intensiva disponibilização de informação on-line, através de portais municipais que, na maioria dos casos, estão já sobrecarregados com informação.
Em termos de medidas a tomar, tem que começar-se por medidas infra-estruturais e de reorganização. Estas são as mais difíceis de implementar, por vários factores: exigem uma análise cuidada, alteram hábitos e processos, têm impacto nos sistemas de informação e, sobretudo, não são visíveis no imediato (o que dá a sensação errada de que nada está a ser feito ou de que o que foi feito para nada serve). Uma lista de muito alto nível poderia ser a seguinte:
Note-se que, actualmente, na maioria dos casos as medidas tomadas se encaixam na linha de acção 5, ficando as restantes – que a deveriam preceder - completamente a descoberto. Simplificar processos não pode ser sinónimo de ‘superficializar’ processos. Exige trabalho sério e medidas de fundo que, por um lado, simplifiquem a interface com o utilizador e, por outro, optimizem processos que, muitas vezes, são de complexidade inevitável.
Dado o seu papel estruturante e a sua vocação para a realização e coordenação de projectos abrangentes de natureza intra e inter-municipal, as Regiões Digitais poderão desempenhar um papel significativo em todo este processo.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 13 de Novembro de 2009
Nos últimos anos temos sido bombardeados com um novo conceito: o Simplex. A força do neologismo parece funcionar como panaceia para muitos dos males da Administração Pública e não só (fala-se já de Simplex para a Ciência). Concentremo-nos no Simplex Autárquico e tentemos analisar objectivamente em que consiste.
A visão estratégica integrada subjacente ao programa Simplex Autárquico é adequada, compreendendo a optimização do funcionamento interno dos serviços municipais, a melhoria da qualidade dos serviços prestados aos munícipes, a promoção de uma melhor interacção entre diferentes administrações públicas e, ainda, a melhoria da transparência das actividades das autarquias.
Infelizmente, definir uma visão estratégica é apenas o primeiro passo para atingir objectivos, faltando, depois, a concretização que os permite alcançar.
As quase trezentas medidas definidas no programa de 2009/2010 do Simplex Autárquico têm naturezas distintas, dependendo da sua abrangência. As medidas inter-sectorias e inter-municipais são, de uma maneira geral, uma lista de funcionalidade desejáveis, umas em fase de levantamento de requisitos, outras em fase de projecto piloto e, a maioria, muito longe de uma concretização devido à sua complexidade. Deste ponto de vista, poder-se-ia dizer que o Simplex é, afinal, Complex, não porque pretenda complicar processos mas porque a sua efectiva implementação no terreno está longe de ser trivial. Quanto às mais de duas centenas e meia de medidas municipais são, salvo raras excepções, medidas desgarradas, pontuais, não integradas numa visão global de sistema de informação autárquico que, no imediato, exploram potencialidades isoladas das tecnologias de informação e comunicação, mas não resolvem problemas de fundo.
Nota-se, claramente, que a preocupação de muitos intervenientes no Simplex é a de mostrar que ‘há coisas a mexer’, essencialmente recorrendo à intensiva disponibilização de informação on-line, através de portais municipais que, na maioria dos casos, estão já sobrecarregados com informação.
Em termos de medidas a tomar, tem que começar-se por medidas infra-estruturais e de reorganização. Estas são as mais difíceis de implementar, por vários factores: exigem uma análise cuidada, alteram hábitos e processos, têm impacto nos sistemas de informação e, sobretudo, não são visíveis no imediato (o que dá a sensação errada de que nada está a ser feito ou de que o que foi feito para nada serve). Uma lista de muito alto nível poderia ser a seguinte:
- Linha de acção 1 – reengenharia de processos
- Linha de acção 2 – definição de uma arquitectura para sistemas de informação autárquicos
- Linha de acção 3 – reformulação e racionalização de infra-estruturas e serviços de TIC
- Linha de acção 4 – definição e instalação de aplicativos
- Linha de acção 5 – disponibilização de serviços e informação on-line
Note-se que, actualmente, na maioria dos casos as medidas tomadas se encaixam na linha de acção 5, ficando as restantes – que a deveriam preceder - completamente a descoberto. Simplificar processos não pode ser sinónimo de ‘superficializar’ processos. Exige trabalho sério e medidas de fundo que, por um lado, simplifiquem a interface com o utilizador e, por outro, optimizem processos que, muitas vezes, são de complexidade inevitável.
Dado o seu papel estruturante e a sua vocação para a realização e coordenação de projectos abrangentes de natureza intra e inter-municipal, as Regiões Digitais poderão desempenhar um papel significativo em todo este processo.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
O ‘face lifting’ das TIC
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 30 de Outubro de 2009
A modernização e simplificação administrativas estão na ordem do dia, quer no que respeita a Administração Central quer no que respeita a Administração Local. Nesta matéria, quais devem ser as principais preocupações a ter em conta?
Quer a modernização quer a simplificação administrativas são processos que exigem um cuidado planeamento, que tem que passar por uma identificação precisa dos objectivos, das soluções, das metodologias, dos recursos humanos e, por fim, dos recursos financeiros. Como processos de engenharia ou reengenharia que são, têm que ser ponderados os riscos, os custos e os benefícios.
A modernização e a simplificação não podem ser encaradas como uma mera mudança de suporte de informação – do papel para o computador – ou, ainda, como uma mera mudança de canal de comunicação – do atendimento presencial para a interacção, quantas vezes demasiado rígida, via Internet – sob pena de se continuar a fazer os mesmos erros, agora com recurso às tecnologias da informação e comunicação (TIC). Infelizmente, são relativamente comuns os casos em que a informatização serve de justificação e desculpa para a inflexibilidade e para a prestação de serviços de má qualidade.
Neste contexto, as principais preocupações da Administração Local em matéria de modernização e simplificação administrativas devem centrar-se na identificação dos objectivos a atingir e na definição da estratégia a utilizar para os alcançar, de acordo com o seguinte:
• Objectivos de modernização e simplificação – quais os serviços de utilizador que se pretende melhorar e porquê? Que processos e fluxos de informação existem? Quais os seus problemas e fragilidades? Destes, quais são os que mais afectam o desempenho e a qualidade dos serviços prestados? Como poderiam ser melhorados? Existem riscos decorrentes da alteração desses processos e fluxos? Quais os benefícios dessa alteração?
• Estratégia a utilizar – A resposta às questões anteriores deve ser seguida de um estudo que permita a definição da estratégia a utilizar para atingir os objectivos traçados. Esse estudo deve contemplar aspectos como a arquitectura dos sistemas de informação subjacentes, as tecnologias e aplicativos a utilizar, os requisitos em termos de infra-estruturas de comunicação e processamento, os meios humanos envolvidos, os custos de implantação e de manutenção, as etapas e respectiva calendarização para a implementação.
Em resumo, é necessário definir o que fazer e como o fazer. De uma maneira geral, a Administração Local sabe bastante bem o que gostaria de fazer em termos de modernização e simplificação administrativas. Já o mesmo não se pode dizer quando ao ‘como fazer’.
Assim, as principais preocupações devem ser de planeamento e projecto, que constituem a única forma de caminhar para sistemas de informação coerentes e abrangentes, capazes de suportar a melhoria dos serviços.
Há que resistir, por todos os meios, à tentação de implantar no terreno soluções pontuais e parcelares que, no imediato, são um mero ‘face lifting’, dando a sensação de que há modernização. Infelizmente, no médio prazo essas soluções criam, frequentemente, sérios obstáculos à integração de sistemas de informação e à eficácia das interacções dentro e para o exterior dos serviços.
É na área do ‘como fazer’ que as regiões digitais podem desempenhar um papel que poderá ser bastante relevante.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
em 30 de Outubro de 2009
A modernização e simplificação administrativas estão na ordem do dia, quer no que respeita a Administração Central quer no que respeita a Administração Local. Nesta matéria, quais devem ser as principais preocupações a ter em conta?
Quer a modernização quer a simplificação administrativas são processos que exigem um cuidado planeamento, que tem que passar por uma identificação precisa dos objectivos, das soluções, das metodologias, dos recursos humanos e, por fim, dos recursos financeiros. Como processos de engenharia ou reengenharia que são, têm que ser ponderados os riscos, os custos e os benefícios.
A modernização e a simplificação não podem ser encaradas como uma mera mudança de suporte de informação – do papel para o computador – ou, ainda, como uma mera mudança de canal de comunicação – do atendimento presencial para a interacção, quantas vezes demasiado rígida, via Internet – sob pena de se continuar a fazer os mesmos erros, agora com recurso às tecnologias da informação e comunicação (TIC). Infelizmente, são relativamente comuns os casos em que a informatização serve de justificação e desculpa para a inflexibilidade e para a prestação de serviços de má qualidade.
Neste contexto, as principais preocupações da Administração Local em matéria de modernização e simplificação administrativas devem centrar-se na identificação dos objectivos a atingir e na definição da estratégia a utilizar para os alcançar, de acordo com o seguinte:
• Objectivos de modernização e simplificação – quais os serviços de utilizador que se pretende melhorar e porquê? Que processos e fluxos de informação existem? Quais os seus problemas e fragilidades? Destes, quais são os que mais afectam o desempenho e a qualidade dos serviços prestados? Como poderiam ser melhorados? Existem riscos decorrentes da alteração desses processos e fluxos? Quais os benefícios dessa alteração?
• Estratégia a utilizar – A resposta às questões anteriores deve ser seguida de um estudo que permita a definição da estratégia a utilizar para atingir os objectivos traçados. Esse estudo deve contemplar aspectos como a arquitectura dos sistemas de informação subjacentes, as tecnologias e aplicativos a utilizar, os requisitos em termos de infra-estruturas de comunicação e processamento, os meios humanos envolvidos, os custos de implantação e de manutenção, as etapas e respectiva calendarização para a implementação.
Em resumo, é necessário definir o que fazer e como o fazer. De uma maneira geral, a Administração Local sabe bastante bem o que gostaria de fazer em termos de modernização e simplificação administrativas. Já o mesmo não se pode dizer quando ao ‘como fazer’.
Assim, as principais preocupações devem ser de planeamento e projecto, que constituem a única forma de caminhar para sistemas de informação coerentes e abrangentes, capazes de suportar a melhoria dos serviços.
Há que resistir, por todos os meios, à tentação de implantar no terreno soluções pontuais e parcelares que, no imediato, são um mero ‘face lifting’, dando a sensação de que há modernização. Infelizmente, no médio prazo essas soluções criam, frequentemente, sérios obstáculos à integração de sistemas de informação e à eficácia das interacções dentro e para o exterior dos serviços.
É na área do ‘como fazer’ que as regiões digitais podem desempenhar um papel que poderá ser bastante relevante.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
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