quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Que outro valor mais alto se alevanta

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 14 de Dezembro de 2009


Peguemos num jornal ou revista de economia e, inevitavelmente, nalgum ponto aparece um artigo ou um trecho que se refere a tecnologias da informação e comunicação (TIC). Peguemos num jornal ou revista de informática e, inevitavelmente, encontramos uma referência à economia. Em regra, pensa-se sempre no impacto que desenvolvimentos tecnológicos têm sobre a economia e vice-versa. No entanto, nos dias de hoje, pensar na economia não basta, já “que outro valor mais alto se alevanta”: o futuro do Planeta. As ameaças ao ambiente são, infelizmente, muitas, sendo importante tentar perceber de que forma podem as TIC ajudar na sua preservação.

Essencialmente podemos usar as TIC para três categorias de tarefas: 1) avaliar o ambiente e monitorizar a evolução de parâmetros fundamentais; 2) utilizar de forma mais eficiente os recursos existentes; 3) sensibilizar os cidadãos e divulgar boas práticas.

A primeira categoria de tarefas pode ser efectuada com recurso a redes de sensores, com ou sem fios. Este tipo de redes permite obter em tempo real – e de forma continuada – valores para uma série de parâmetros físicos como, por exemplo, temperatura, pressão, humidade, movimento, concentração de poluentes, etc., à escala de um processo industrial, de uma empresa, de uma cidade, de uma região, de um país ou do Globo. Utilizando redes de sensores acessíveis pela Internet é possível desenvolver e operar aplicações de controlo ambiental a partir de qualquer ponto do mundo, que alimentarão bases de dados e de informação vitais para compreender melhor e acompanhar quaisquer variações ambientais.

Quanto à utilização eficiente de recursos, as TIC podem ajudar de múltiplas formas. Por exemplo, é quase lugar comum dizer que com a informática há uma forte redução do papel em escritórios e organismos públicos e privados. Infelizmente, a prática é bem diferente. Se compararmos os gastos de papel antes e depois da generalização dos meios informáticos, facilmente constatamos que cada vez se gasta mais papel. Nesta matéria há que mudar práticas e legislação que, na maior parte dos casos, obriga, irracionalmente, a que a informação esteja em suporte de papel, mesmo sabendo que o suporte digital é mais duradouro, mais fiável e mais resistente a falsificações. Há, por exemplo, que generalizar a utilização dos mecanismos de assinaturas digitais, que têm já o mesmo valor legal das assinaturas manuscritas. A este respeito pode perguntar-se: quantos actos legais (por exemplo, em notários, tribunais, ministérios ou autarquias) são efectuados com recurso a assinaturas e documentos digitais?

A área na qual as TIC têm, sem margem para dúvida, tido o maior impacto é na sensibilização dos cidadãos. A Internet tem, entre muitos males e bens, o valor inestimável de dar voz aos cidadãos. Hoje em dia, qualquer pessoa pode produzir e publicar conteúdos na Internet. Quer as organizações quer os cidadãos individuais podem ‘fazer-se ouvir’, levando políticos, decisores e governos a actuar. E é de actuação que o planeta Terra precisa, para que possamos, de vez em quando, esquecer a economia, esquecer as TIC e reconhecer, com um sorriso confiante que, como escreveu Fernando Pessoa, “Grande é a poesia, a bondade e as danças... Mas o melhor do mundo são as crianças”.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Ovelhas não são para mato

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 28 de Novembro de 2009


A informação é, para muitas das actuais organizações, o bem mais precioso. Porque tal facto é verdadeiro também para a Administração Local, tem esta efectuado um forte investimento em serviços de TIC (tecnologias da informação e comunicação), o que parece lógico e adequado. Neste contexto, cada município constitui os seus próprios serviços e correio electrónico, páginas Web, bases de dados, sistemas de informação, etc., com os consequentes gastos em equipamento, software, aplicações, licenciamento, manutenção e recursos humanos.

Será essa a estratégia adequada? Não se estará a confundir informação com serviços informáticos? Competirá às autarquias ‘reinventar a roda’ e ter caras infra-estruturas para assegurar serviços para os quais não estão nem devem estar vocacionadas? Não deverão as autarquias seguir o exemplo de inúmeras entidades empresariais por este Mundo fora, que recorrem a serviços de informática externos, sem prejuízo do total controlo sobre a sua informação?

De uma maneira geral, os profissionais da Administração Local são competentes e empenhados e conhecem bem os pontos fortes e fracos dos mecanismos, procedimentos, processos, sistemas e serviços. No entanto, sem ferramentas adaptadas às necessidades pouco pode ser feito para melhorar a eficiência e a qualidade do trabalho. Por ferramentas adequadas entende-se infra-estruturas de informática e comunicações, software adaptado e capaz de suportar processos optimizados, soluções globais testadas e a funcionar.

Naturalmente que não compete à Administração Local desenvolver essas ferramentas. Apesar disso, são muitas as tentativas para o fazer, inevitavelmente com resultados muito aquém das expectativas ou, até, com total fracasso. O papel da Administração Local nesta matéria deve ser o de definir requisitos, avaliar alternativas existentes, contratar desenvolvimento se não existirem soluções ‘chave na mão’ e supervisionar a sua correcta aplicação no terreno. Também naturalmente, em todos estes processos deve a Administração Local socorrer-se de aconselhamento especializado.

Aqui o papel das regiões digitais pode ser crucial e extremamente benéfico. Para além do aconselhamento especializado, as regiões digitais podem estar na base do fornecimento de soluções globais de serviços comuns de comunicações (por exemplo, soluções de e-mail, Web, etc.), de soluções aplicacionais disponíveis para todos os seus associados (por exemplo, soluções de gestão de processos, de facturação electrónica, de logística, de informação geográfica, de serviços on-line, etc.) e de soluções para disponibilização de conteúdos (por exemplo, plataformas de informação cultural, histórica, turística, etc.). Ao fornecer-se soluções globais e homogéneas, potencia-se a redução de custos por via da utilização eficiente de meios humanos e materiais, a replicação de soluções testadas e, não menos importante, a comunicação dentro de e entre diferentes administrações locais.

Às regiões digitais pode – e deve – deixar-se a espinhosa tarefa do desenvolvimento e fornecimento de soluções informáticas eficazes, libertando as autarquias para as funções para as quais têm vocação e elevada competência. Como diz a sabedoria popular, “ovelhas não são para mato”.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

O lado complexo do Simplex

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 13 de Novembro de 2009

Nos últimos anos temos sido bombardeados com um novo conceito: o Simplex. A força do neologismo parece funcionar como panaceia para muitos dos males da Administração Pública e não só (fala-se já de Simplex para a Ciência). Concentremo-nos no Simplex Autárquico e tentemos analisar objectivamente em que consiste.

A visão estratégica integrada subjacente ao programa Simplex Autárquico é adequada, compreendendo a optimização do funcionamento interno dos serviços municipais, a melhoria da qualidade dos serviços prestados aos munícipes, a promoção de uma melhor interacção entre diferentes administrações públicas e, ainda, a melhoria da transparência das actividades das autarquias.

Infelizmente, definir uma visão estratégica é apenas o primeiro passo para atingir objectivos, faltando, depois, a concretização que os permite alcançar.

As quase trezentas medidas definidas no programa de 2009/2010 do Simplex Autárquico têm naturezas distintas, dependendo da sua abrangência. As medidas inter-sectorias e inter-municipais são, de uma maneira geral, uma lista de funcionalidade desejáveis, umas em fase de levantamento de requisitos, outras em fase de projecto piloto e, a maioria, muito longe de uma concretização devido à sua complexidade. Deste ponto de vista, poder-se-ia dizer que o Simplex é, afinal, Complex, não porque pretenda complicar processos mas porque a sua efectiva implementação no terreno está longe de ser trivial. Quanto às mais de duas centenas e meia de medidas municipais são, salvo raras excepções, medidas desgarradas, pontuais, não integradas numa visão global de sistema de informação autárquico que, no imediato, exploram potencialidades isoladas das tecnologias de informação e comunicação, mas não resolvem problemas de fundo.

Nota-se, claramente, que a preocupação de muitos intervenientes no Simplex é a de mostrar que ‘há coisas a mexer’, essencialmente recorrendo à intensiva disponibilização de informação on-line, através de portais municipais que, na maioria dos casos, estão já sobrecarregados com informação.

Em termos de medidas a tomar, tem que começar-se por medidas infra-estruturais e de reorganização. Estas são as mais difíceis de implementar, por vários factores: exigem uma análise cuidada, alteram hábitos e processos, têm impacto nos sistemas de informação e, sobretudo, não são visíveis no imediato (o que dá a sensação errada de que nada está a ser feito ou de que o que foi feito para nada serve). Uma lista de muito alto nível poderia ser a seguinte:

  • Linha de acção 1 – reengenharia de processos
  • Linha de acção 2 – definição de uma arquitectura para sistemas de informação autárquicos
  • Linha de acção 3 – reformulação e racionalização de infra-estruturas e serviços de TIC
  • Linha de acção 4 – definição e instalação de aplicativos
  • Linha de acção 5 – disponibilização de serviços e informação on-line

Note-se que, actualmente, na maioria dos casos as medidas tomadas se encaixam na linha de acção 5, ficando as restantes – que a deveriam preceder - completamente a descoberto. Simplificar processos não pode ser sinónimo de ‘superficializar’ processos. Exige trabalho sério e medidas de fundo que, por um lado, simplifiquem a interface com o utilizador e, por outro, optimizem processos que, muitas vezes, são de complexidade inevitável.

Dado o seu papel estruturante e a sua vocação para a realização e coordenação de projectos abrangentes de natureza intra e inter-municipal, as Regiões Digitais poderão desempenhar um papel significativo em todo este processo.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

O ‘face lifting’ das TIC

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 30 de Outubro de 2009

A modernização e simplificação administrativas estão na ordem do dia, quer no que respeita a Administração Central quer no que respeita a Administração Local. Nesta matéria, quais devem ser as principais preocupações a ter em conta?

Quer a modernização quer a simplificação administrativas são processos que exigem um cuidado planeamento, que tem que passar por uma identificação precisa dos objectivos, das soluções, das metodologias, dos recursos humanos e, por fim, dos recursos financeiros. Como processos de engenharia ou reengenharia que são, têm que ser ponderados os riscos, os custos e os benefícios.

A modernização e a simplificação não podem ser encaradas como uma mera mudança de suporte de informação – do papel para o computador – ou, ainda, como uma mera mudança de canal de comunicação – do atendimento presencial para a interacção, quantas vezes demasiado rígida, via Internet – sob pena de se continuar a fazer os mesmos erros, agora com recurso às tecnologias da informação e comunicação (TIC). Infelizmente, são relativamente comuns os casos em que a informatização serve de justificação e desculpa para a inflexibilidade e para a prestação de serviços de má qualidade.

Neste contexto, as principais preocupações da Administração Local em matéria de modernização e simplificação administrativas devem centrar-se na identificação dos objectivos a atingir e na definição da estratégia a utilizar para os alcançar, de acordo com o seguinte:
• Objectivos de modernização e simplificação – quais os serviços de utilizador que se pretende melhorar e porquê? Que processos e fluxos de informação existem? Quais os seus problemas e fragilidades? Destes, quais são os que mais afectam o desempenho e a qualidade dos serviços prestados? Como poderiam ser melhorados? Existem riscos decorrentes da alteração desses processos e fluxos? Quais os benefícios dessa alteração?
• Estratégia a utilizar – A resposta às questões anteriores deve ser seguida de um estudo que permita a definição da estratégia a utilizar para atingir os objectivos traçados. Esse estudo deve contemplar aspectos como a arquitectura dos sistemas de informação subjacentes, as tecnologias e aplicativos a utilizar, os requisitos em termos de infra-estruturas de comunicação e processamento, os meios humanos envolvidos, os custos de implantação e de manutenção, as etapas e respectiva calendarização para a implementação.

Em resumo, é necessário definir o que fazer e como o fazer. De uma maneira geral, a Administração Local sabe bastante bem o que gostaria de fazer em termos de modernização e simplificação administrativas. Já o mesmo não se pode dizer quando ao ‘como fazer’.

Assim, as principais preocupações devem ser de planeamento e projecto, que constituem a única forma de caminhar para sistemas de informação coerentes e abrangentes, capazes de suportar a melhoria dos serviços.

Há que resistir, por todos os meios, à tentação de implantar no terreno soluções pontuais e parcelares que, no imediato, são um mero ‘face lifting’, dando a sensação de que há modernização. Infelizmente, no médio prazo essas soluções criam, frequentemente, sérios obstáculos à integração de sistemas de informação e à eficácia das interacções dentro e para o exterior dos serviços.

É na área do ‘como fazer’ que as regiões digitais podem desempenhar um papel que poderá ser bastante relevante.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Tecnologias de Informação e Comunicação – Motores de Mudança

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 16 de Outubro de 2009


Apesar do desenvolvimento das primeiras redes de comunicação e das tecnologias que dariam lugar à actual Internet ter começado no início dos anos 1960, a ‘explosão’ da Internet – acompanhada da generalização da utilização de uma série de tecnologias de informação e comunicação (TIC) – só se deu na década de 1990. Até essa altura, a rede global era a rede telefónica, cobrindo todo o planeta e fornecendo um restrito leque de serviços fortemente centrado nos serviços (analógicos) de voz.

Hoje o mundo seria impensável sem a rede Internet e sem a variedade de tecnologias de informação e comunicação que lhe estão associadas, dado que, virtualmente, todos os sectores de actividade se apoiam nelas, directa ou indirectamente.

Qual foi o factor primordial para a drástica mudança que ocorreu nos anos 1990? Há duas respostas para esta questão. Em termos tecnológicos, o factor chave foi o desenvolvimento da World Wide Web. O factor primordial foi, no entanto – e como sempre – o factor de motivação humana. De repente, um manancial de informação passou a estar disponível a um número crescente de utilizadores de forma extremamente simples e cómoda. O interesse dos utilizadores gerou uma forte procura o que, por sua vez, motivou uma oferta crescente. Por outro lado, as possibilidades em termos de serviços passaram a contemplar um leque variado, que incluía correio electrónico, instant messaging, envio e partilha de ficheiros, comércio electrónico, entre outros. Mais recentemente, a estes juntaram-se serviços como o serviço de voz ou de televisão.

A mudança potenciada pela Internet, fortemente suportada na procura por parte dos seus utilizadores, foi de tal ordem que a generalidade dos operadores de telecomunicações viu o seu negócio mudar radicalmente no espaço de poucos anos, levando-os a recentrar a sua actividade no fornecimento de serviços de Internet, integralmente apoiados em tecnologias digitais de comunicação.

Com a disponibilização comercial de serviços e tecnologias de Internet, abriram-se as portas a que uma multiplicidade de serviços, até aí prestados de forma presencial, pudessem passar a estar acessíveis on-line a qualquer utilizador, independentemente da sua localização física. Naturalmente que, num cenário destes, um enorme campo se abriu: o da modernização administrativa apoiada nas TIC passando, necessariamente, pela disponibilização de serviços da Administração Pública através da Internet.

É nessa modernização administrativa que a Associação Coimbra Região Digital actualmente aposta, promovendo e apoiando projectos tão variados como o desenvolvimento de portais municipais, o estabelecimento de plataformas para disponibilização de serviços autárquicos on-line aos munícipes, o fornecimento de produtos e serviços informáticos para os associados (municípios, empresas e entidades de interface universidade-empresa) e a disponibilização de uma plataforma tecnológica e aplicacional de suporte à logística municipal.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Alguns Riscos e Problemas das TIC na Administração Pública


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 2 de Outubro de 2009


O potencial das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na Administração Pública é largamente conhecido e tem vindo a ser explorado no contexto de inúmeras iniciativas de modernização administrativa. Tratando-se de uma área para a qual, numa boa parte dos casos, existe um défice de know-how quer por parte dos utilizadores, quer por parte de pessoal técnico e especialista, quer, ainda, por parte de decisores – ao que não é estranha a novidade e a rápida evolução que a caracterizam – a área das TIC na Administração Pública não é, no entanto, isenta de riscos e de problemas. Porque conhecê-los é o primeiro passo para lidar com eles, no que se segue são referidos alguns dos mais relevantes.

Um dos principais riscos é o da segurança informática. Ao interligar sistemas em rede e ao permitir o acesso de utilizadores através da Internet, existe a possibilidade de que redes, servidores, serviços e informação fiquem expostos a ataques por parte de utilizadores e/ou máquinas remotos. Infelizmente, a área da segurança de sistemas e redes é uma das mais descuradas, quer por desconhecimento quer por incapacidade técnica, o que contribui de forma decisiva para o demasiado elevado número e tipo de vulnerabilidades de máquinas e redes ligadas à Internet. A segurança é uma área que deve ser tida em conta em todas as fases da vida de uma infra-estrutura, a começar pelas fases de planeamento e projecto e não descurando, naturalmente, as fases de operação e manutenção.

Um outro problema comum é o da inadequação de infra-estruturas e equipamentos. Frequentemente, as infra-estruturas de rede estão mal dimensionadas e/ou desactualizadas tecnologicamente, o que causa problemas a todos os níveis. Tal deve-se, amiúde, a um deficiente planeamento e projecto – nos casos em que esse planeamento e projecto existiram. A constituição de qualquer sistema, aplicação ou rede informáticos deve estar sujeita a uma rigorosa análise de requisitos, a que se deve seguir uma especificação detalhada e uma implementação devidamente controlada.

É, também, devido a mau planeamento e especificação que, dentro da mesma entidade ou serviço, seja relativamente comum a existência de diferentes sistemas de informação não integrados, o que leva à ‘fragmentação informática’ da entidade em diferentes domínios entre os quais a informação circula difícil ou ineficazmente. Por vezes, é necessária uma exportação/importação quase manual entre diferentes sistemas de informação, o que leva a fortes limitações e a custos desnecessários.

Por outro lado, é frequente que os orçamentos de serviços/sectores não tenham em conta custos de operação, manutenção, actualização e crescimento das TIC (ao contrário do que acontece com outras áreas). As TIC ainda são encaradas como projectos de excepção, muitas vezes efectuados com recurso a financiamentos conseguidos por candidaturas a programas que, quando acabam, deixam as entidades com custos de manutenção e operação consideráveis, para os quais não têm capacidade financeira.

Por fim, é de referir que a utilização de soluções de código aberto (open source) é, ainda, bastante rara, ao contrário do que se passa em administrações públicas de outros países Europeus bem mais ricos do que Portugal, como é o caso da França. Os custos de licenciamento de software proprietário representam uma boa parte do investimento em TIC feito na Administração Pública. Se nos lembrarmos que, na esmagadora maioria dos casos, um agente da Administração Pública tem apenas que utilizar programas de ‘office’, um ‘browser’ e um cliente de correio electrónico, facilmente se conclui que uma vasta maioria dos equipamentos poderia recorrer a software ‘open source’ sem qualquer problema e com enormes poupanças.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

O Potencial das TIC na Administração Pública

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 18 de Setembro de 2009


As modernas tecnologias de rede vieram permitir acesso a dados, a informação, a serviços e a recursos computacionais a qualquer hora, a partir de qualquer ponto, fixo ou móvel, utilizando débitos binários bastante elevados – normalmente referidos como ‘banda larga’.

Hoje em dia, as tecnologias de rede permitem:
  • agregar o poder de processamento de centenas ou milhares de máquinas numa única máquina virtual;
  • fazer uma utilização totalmente distribuída de um conjunto concentrado de servidores e serviços, tornando a sua localização irrelevante e/ou invisível para os utilizadores;
  • suportar, de forma eficaz, a comunicação máquina-máquina, pessoa-máquina e pessoa-pessoa.

A par do desenvolvimento de tecnologias de rede, o aparecimento de sistemas computacionais cada vez mais poderosos, o desenvolvimento de aplicações de processamento, armazenamento e disponibilização de dados e informação e, ainda, o desenvolvimento de sistemas de informação de larga escala mudaram completamente o modo de funcionamento das organizações.

Naturalmente que a Administração Pública, como entidade fortemente centrada em actividades que envolvem a recolha, processamento e disponibilização de grandes volumes de informação, bem como no fornecimento de serviços à generalidade dos cidadãos, beneficiou de todas as tecnologias já referidas. São vários os exemplos de boa utilização das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na Administração Pública e todos os cidadãos reconhecem que, através delas, a interacção Estado-Cidadão tem vindo a ser fortemente melhorada em termos de eficácia.

Para a Administração Pública, o potencial das TIC está, no entanto, longe de estar esgotado. São inúmeras as áreas a explorar, quer ao nível do funcionamento interno, quer ao nível do relacionamento com o cidadão. Enumeram-se, de seguida, algumas:
  • eficiente partilha e exploração de recursos, sejam eles computacionais sejam eles pessoas fortemente especializadas (por exemplo, especialistas de administração de sistemas e redes, especialistas de sistemas de informação), rentabilizando meios materiais e humanos;
  • acesso distribuído a sistemas de informação globais, eliminando-se, desta forma, múltiplos carregamentos de dados e incoerências de informação; o acesso distribuído permite, ainda, que agentes com os mesmos privilégios de acesso tenham sempre a mesma visão sobre os dados e informação, independentemente da sua localização;
  • tele-trabalho – o recurso a redes de alto débito viabiliza a utilização remota de sistemas computacionais a partir de qualquer lugar e a qualquer hora, flexibilizando os horários de trabalho e maximizando a produtividade;
  • tele-reuniões e tele-presença – as tecnologias da informação e comunicação permitem, ainda, a utilização de sistemas de tele e vídeo-conferência, o que conduz a fortes poupanças de tempo e dinheiro, já que são minimizadas as deslocações, conduzindo, ainda, a uma maior interacção entre agentes geograficamente distantes;
  • soluções de back-up remoto e de disaster recovery – o recurso a redes com elevada largura de banda e a distribuição de data centers permitem explorar a redundância de sistemas e a distribuição geográfica para a constituição de soluções de salvaguarda de dados (back-up) e soluções sobrevivência e recuperação de catástrofes (disaster recovery), tornando os sistemas mais robustos;
  • constituição de interfaces entre entidades e os seus públicos alvo, possibilitando, desta forma, a disponibilização de informação e de serviços on-line aos cidadãos em áreas tão importantes como a justiça, as finanças, a educação, a saúde, o lazer, a cultura, a ecologia, a sustentabilidade, o turismo, a segurança, o emprego, a interacção com agentes locais, entre muitas outras.

As TIC têm, indubitavelmente, um elevado potencial para a Administração Pública. Resta agora saber e poder tirar partido dele.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital