quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Tecnologias de Informação e Comunicação – Motores de Mudança

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 16 de Outubro de 2009


Apesar do desenvolvimento das primeiras redes de comunicação e das tecnologias que dariam lugar à actual Internet ter começado no início dos anos 1960, a ‘explosão’ da Internet – acompanhada da generalização da utilização de uma série de tecnologias de informação e comunicação (TIC) – só se deu na década de 1990. Até essa altura, a rede global era a rede telefónica, cobrindo todo o planeta e fornecendo um restrito leque de serviços fortemente centrado nos serviços (analógicos) de voz.

Hoje o mundo seria impensável sem a rede Internet e sem a variedade de tecnologias de informação e comunicação que lhe estão associadas, dado que, virtualmente, todos os sectores de actividade se apoiam nelas, directa ou indirectamente.

Qual foi o factor primordial para a drástica mudança que ocorreu nos anos 1990? Há duas respostas para esta questão. Em termos tecnológicos, o factor chave foi o desenvolvimento da World Wide Web. O factor primordial foi, no entanto – e como sempre – o factor de motivação humana. De repente, um manancial de informação passou a estar disponível a um número crescente de utilizadores de forma extremamente simples e cómoda. O interesse dos utilizadores gerou uma forte procura o que, por sua vez, motivou uma oferta crescente. Por outro lado, as possibilidades em termos de serviços passaram a contemplar um leque variado, que incluía correio electrónico, instant messaging, envio e partilha de ficheiros, comércio electrónico, entre outros. Mais recentemente, a estes juntaram-se serviços como o serviço de voz ou de televisão.

A mudança potenciada pela Internet, fortemente suportada na procura por parte dos seus utilizadores, foi de tal ordem que a generalidade dos operadores de telecomunicações viu o seu negócio mudar radicalmente no espaço de poucos anos, levando-os a recentrar a sua actividade no fornecimento de serviços de Internet, integralmente apoiados em tecnologias digitais de comunicação.

Com a disponibilização comercial de serviços e tecnologias de Internet, abriram-se as portas a que uma multiplicidade de serviços, até aí prestados de forma presencial, pudessem passar a estar acessíveis on-line a qualquer utilizador, independentemente da sua localização física. Naturalmente que, num cenário destes, um enorme campo se abriu: o da modernização administrativa apoiada nas TIC passando, necessariamente, pela disponibilização de serviços da Administração Pública através da Internet.

É nessa modernização administrativa que a Associação Coimbra Região Digital actualmente aposta, promovendo e apoiando projectos tão variados como o desenvolvimento de portais municipais, o estabelecimento de plataformas para disponibilização de serviços autárquicos on-line aos munícipes, o fornecimento de produtos e serviços informáticos para os associados (municípios, empresas e entidades de interface universidade-empresa) e a disponibilização de uma plataforma tecnológica e aplicacional de suporte à logística municipal.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Alguns Riscos e Problemas das TIC na Administração Pública


Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 2 de Outubro de 2009


O potencial das tecnologias de informação e comunicação (TIC) na Administração Pública é largamente conhecido e tem vindo a ser explorado no contexto de inúmeras iniciativas de modernização administrativa. Tratando-se de uma área para a qual, numa boa parte dos casos, existe um défice de know-how quer por parte dos utilizadores, quer por parte de pessoal técnico e especialista, quer, ainda, por parte de decisores – ao que não é estranha a novidade e a rápida evolução que a caracterizam – a área das TIC na Administração Pública não é, no entanto, isenta de riscos e de problemas. Porque conhecê-los é o primeiro passo para lidar com eles, no que se segue são referidos alguns dos mais relevantes.

Um dos principais riscos é o da segurança informática. Ao interligar sistemas em rede e ao permitir o acesso de utilizadores através da Internet, existe a possibilidade de que redes, servidores, serviços e informação fiquem expostos a ataques por parte de utilizadores e/ou máquinas remotos. Infelizmente, a área da segurança de sistemas e redes é uma das mais descuradas, quer por desconhecimento quer por incapacidade técnica, o que contribui de forma decisiva para o demasiado elevado número e tipo de vulnerabilidades de máquinas e redes ligadas à Internet. A segurança é uma área que deve ser tida em conta em todas as fases da vida de uma infra-estrutura, a começar pelas fases de planeamento e projecto e não descurando, naturalmente, as fases de operação e manutenção.

Um outro problema comum é o da inadequação de infra-estruturas e equipamentos. Frequentemente, as infra-estruturas de rede estão mal dimensionadas e/ou desactualizadas tecnologicamente, o que causa problemas a todos os níveis. Tal deve-se, amiúde, a um deficiente planeamento e projecto – nos casos em que esse planeamento e projecto existiram. A constituição de qualquer sistema, aplicação ou rede informáticos deve estar sujeita a uma rigorosa análise de requisitos, a que se deve seguir uma especificação detalhada e uma implementação devidamente controlada.

É, também, devido a mau planeamento e especificação que, dentro da mesma entidade ou serviço, seja relativamente comum a existência de diferentes sistemas de informação não integrados, o que leva à ‘fragmentação informática’ da entidade em diferentes domínios entre os quais a informação circula difícil ou ineficazmente. Por vezes, é necessária uma exportação/importação quase manual entre diferentes sistemas de informação, o que leva a fortes limitações e a custos desnecessários.

Por outro lado, é frequente que os orçamentos de serviços/sectores não tenham em conta custos de operação, manutenção, actualização e crescimento das TIC (ao contrário do que acontece com outras áreas). As TIC ainda são encaradas como projectos de excepção, muitas vezes efectuados com recurso a financiamentos conseguidos por candidaturas a programas que, quando acabam, deixam as entidades com custos de manutenção e operação consideráveis, para os quais não têm capacidade financeira.

Por fim, é de referir que a utilização de soluções de código aberto (open source) é, ainda, bastante rara, ao contrário do que se passa em administrações públicas de outros países Europeus bem mais ricos do que Portugal, como é o caso da França. Os custos de licenciamento de software proprietário representam uma boa parte do investimento em TIC feito na Administração Pública. Se nos lembrarmos que, na esmagadora maioria dos casos, um agente da Administração Pública tem apenas que utilizar programas de ‘office’, um ‘browser’ e um cliente de correio electrónico, facilmente se conclui que uma vasta maioria dos equipamentos poderia recorrer a software ‘open source’ sem qualquer problema e com enormes poupanças.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

O Potencial das TIC na Administração Pública

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 18 de Setembro de 2009


As modernas tecnologias de rede vieram permitir acesso a dados, a informação, a serviços e a recursos computacionais a qualquer hora, a partir de qualquer ponto, fixo ou móvel, utilizando débitos binários bastante elevados – normalmente referidos como ‘banda larga’.

Hoje em dia, as tecnologias de rede permitem:
  • agregar o poder de processamento de centenas ou milhares de máquinas numa única máquina virtual;
  • fazer uma utilização totalmente distribuída de um conjunto concentrado de servidores e serviços, tornando a sua localização irrelevante e/ou invisível para os utilizadores;
  • suportar, de forma eficaz, a comunicação máquina-máquina, pessoa-máquina e pessoa-pessoa.

A par do desenvolvimento de tecnologias de rede, o aparecimento de sistemas computacionais cada vez mais poderosos, o desenvolvimento de aplicações de processamento, armazenamento e disponibilização de dados e informação e, ainda, o desenvolvimento de sistemas de informação de larga escala mudaram completamente o modo de funcionamento das organizações.

Naturalmente que a Administração Pública, como entidade fortemente centrada em actividades que envolvem a recolha, processamento e disponibilização de grandes volumes de informação, bem como no fornecimento de serviços à generalidade dos cidadãos, beneficiou de todas as tecnologias já referidas. São vários os exemplos de boa utilização das tecnologias da informação e comunicação (TIC) na Administração Pública e todos os cidadãos reconhecem que, através delas, a interacção Estado-Cidadão tem vindo a ser fortemente melhorada em termos de eficácia.

Para a Administração Pública, o potencial das TIC está, no entanto, longe de estar esgotado. São inúmeras as áreas a explorar, quer ao nível do funcionamento interno, quer ao nível do relacionamento com o cidadão. Enumeram-se, de seguida, algumas:
  • eficiente partilha e exploração de recursos, sejam eles computacionais sejam eles pessoas fortemente especializadas (por exemplo, especialistas de administração de sistemas e redes, especialistas de sistemas de informação), rentabilizando meios materiais e humanos;
  • acesso distribuído a sistemas de informação globais, eliminando-se, desta forma, múltiplos carregamentos de dados e incoerências de informação; o acesso distribuído permite, ainda, que agentes com os mesmos privilégios de acesso tenham sempre a mesma visão sobre os dados e informação, independentemente da sua localização;
  • tele-trabalho – o recurso a redes de alto débito viabiliza a utilização remota de sistemas computacionais a partir de qualquer lugar e a qualquer hora, flexibilizando os horários de trabalho e maximizando a produtividade;
  • tele-reuniões e tele-presença – as tecnologias da informação e comunicação permitem, ainda, a utilização de sistemas de tele e vídeo-conferência, o que conduz a fortes poupanças de tempo e dinheiro, já que são minimizadas as deslocações, conduzindo, ainda, a uma maior interacção entre agentes geograficamente distantes;
  • soluções de back-up remoto e de disaster recovery – o recurso a redes com elevada largura de banda e a distribuição de data centers permitem explorar a redundância de sistemas e a distribuição geográfica para a constituição de soluções de salvaguarda de dados (back-up) e soluções sobrevivência e recuperação de catástrofes (disaster recovery), tornando os sistemas mais robustos;
  • constituição de interfaces entre entidades e os seus públicos alvo, possibilitando, desta forma, a disponibilização de informação e de serviços on-line aos cidadãos em áreas tão importantes como a justiça, as finanças, a educação, a saúde, o lazer, a cultura, a ecologia, a sustentabilidade, o turismo, a segurança, o emprego, a interacção com agentes locais, entre muitas outras.

As TIC têm, indubitavelmente, um elevado potencial para a Administração Pública. Resta agora saber e poder tirar partido dele.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

A Cidade e as Serras Digitais

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 5 de Setembro de 2009


É relativamente frequente ouvir ou ler aqui e ali notícias sobre grandes infra-estruturas de comunicação de dados a instalar em cidades e regiões do nosso Pais. Muitas vezes, a notícia é a quantidade de quilómetros de fibra óptica a instalar ou, ainda, as grandes velocidades e volume de dados que essas verdadeiras ‘auto-estradas’ permitirão. Naturalmente, o leitor menos ligado a estas complicadas questões tecnológicas fica um pouco ‘embriagado’ com tanta Civilização, bem à maneira de Jacinto e de José Fernandes de “A Cidade e as Serras”, do nosso inigualável Eça de Queiroz.

Também muitas vezes – tantas quantas as vezes com que me deparo com essas notícias – me pergunto qual o nível de utilização dessas formidáveis e caras infra-estruturas de TIC (tecnologias de informação e comunicação), onde estão os enormes volumes de dados e conteúdos que as justificam e, por fim, se caberá às regiões digitais o ónus de as concretizar. No fundo a pergunta que faço é se, em termos digitais, queremos a ‘cidade’ pela ‘cidade’ ou se não seria preferível melhorar as ‘serras’ de forma sustentada e harmoniosa.

Naturalmente que a Associação Coimbra Região Digital (ACRD) tem ambições, planos e projectos na área das infra-estruturas de rede. No entanto, o bem português ‘salto no escuro com medo de ficar para trás’ não deve ser desculpa para que não se faça o que deve ser feito: analisar requisitos reais e concretos, tomar decisões sustentadas e planear acções.

Em matéria de infra-estruturas de rede, as regiões digitais deverão funcionar como aconselhadoras e promotoras de soluções, replicando casos de sucesso, validando opções e nivelando desigualdades tecnológicas entre sub-regiões, promovendo, assim, um desenvolvimento solidário. Quais são, então os projectos de infra-estruturas de TIC que fazem sentido e que, portanto, devem ser considerados? Em tão pouco espaço é difícil falar de todos. Destacam-se, no entanto, os seguintes:

• Infra-estruturas de comunicações municipais –sub-projectos no âmbito de cada município, tendo em vista a interligação de edifícios e instalações municipais, nomeadamente de edifícios camarários, juntas de freguesia e, eventualmente, escolas. O objectivo deve ser o de dotar os municípios com meios eficazes de comunicação interna, sempre que ainda não existam, contribuindo de forma eficaz para a melhoria da conectividade interna e do funcionamento dos serviços, e dando resposta a necessidades prementes, já hoje sentidas.

• Infra-estruturas de salvaguarda de dados (back-up e disaster recovery) – Reforço de infra-estruturas regionais de processamento e armazenamento, de forma a que estas possam operar como infra-estruturas de salvaguarda remota de dados dos sistemas municipais existentes. Os benefícios para os municípios são claros, pois podem reduzir custos em termos de soluções de back-up e maximizam a segurança dos dados, através de diversidade geográfica.

• Pontos de acesso sem fios – Aumento do número de pontos de acesso sem fios nos diversos municípios, estendendo a rede já existente. Este aumento traduz-se em benefícios imediatos para a população e visitantes.

• Espaços Internet autárquicos – Reforço dos meios informáticos e do número de espaços para acesso à Internet disponibilizados pelas autarquias. Poder-se-ão estender a juntas de freguesia e a diversos edifícios municipais.

• Projectos de apoio à Internet nas escolas – Apoio às autarquias, no sentido de projectar/disponibilizar/reforçar meios de acesso à Internet nas escolas, complementarmente a outros programas já existentes. Estes projectos terão em vista uma racionalização de meios e redução de custos para as autarquias, estudando as soluções caso-a-caso.

Trata-se de um pequeno leque de projectos que se caracteriza, no entanto, pela exequibilidade e utilidade. Naturalmente que, em termos de infra-estruturas, se poderia ir muito além, mas não deixa de ser verdade que estes ‘pequenos passos’ poderão contribuir de forma decisiva para uma mais verdadeira região digital de Coimbra e evitar “amarguradas ilusões e falsas delícias”.



Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

Os 10 Mandamentos das Regiões Digitais

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
24 de Julho de 2009, página 30

Apesar de constituídas há vários anos, as regiões digitais são, ainda, no essencial, desconhecidas para o cidadão comum. O que são? Para que servem? Qual o seu impacto? Falemos hoje de linhas de orientação estratégica para as regiões digitais. Naturalmente, as que aqui se referem serão aquelas que, em primeiro lugar, dirigem a acção da Associação Coimbra Região Digital (http://www.coimbradigital.pt/), embora, no entender do autor, devam ser aplicáveis a qualquer região digital. Ao dá-las a conhecer ao leitor pretende-se, também, envolvê-lo na estratégia da ACRD, convidando-o desta forma a contribuir para os seus objectivos. Porque são dez e porque são gerais, chamar-lhes-emos os 10 mandamentos das regiões digitais.

1º- Utilidade - A actividade das regiões digitais deve ser orientada para a execução de projectos que conduzam a um claro benefício, impacto positivo e utilidade para os cidadãos. As regiões digitais não existem para se manterem a si próprias, mas sim para servir o cidadão, contribuindo para a melhoria da sua qualidade de vida.

2º- Visibilidade –As regiões digitais devem utilizar as TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) como forma privilegiada para dar acesso a serviços e visibilidade à região, aos seus concelhos, às actividades que aí são desenvolvidas e às pessoas que nela vivem.

3º- Suporte – Deverão as regiões digitais apoiar os municípios e comunidades que delas fazem parte em projectos de natureza inter-municipal e/ou regional e, ainda, em projectos de natureza municipal e/ou local para os quais sejam por aqueles solicitadas. Tanto quanto possível, deverão as regiões digitais funcionar como aconselhadoras e promotoras de soluções, replicando casos de sucesso, validando opções e nivelando desigualdades tecnológicas entre sub-regiões, promovendo, assim, o desenvolvimento solidário.

4º- Projectos – As regiões digitais devem promover projectos de desenvolvimento aplicado e inovação em três grandes áreas: infra-estruturas tecnológicas, serviços/aplicações e conteúdos. A primeira destas áreas é indispensável ao suporte das outras duas. Os serviços/aplicações devem potenciar a interacção entre cidadãos, entidades locais e regiões digitais, de acordo com o princípio da utilidade. Os conteúdos potenciam a visibilidade da região, das suas comunidades e dos cidadãos.

5º - Práticas –As regiões digitais deverão basear a sua actuação num conjunto de boas práticas de TIC, reconhecidas nos sectores público e privado. Para tal, devem recorrer a soluções de TIC testadas e com provas dadas, ou seja, devem fazer uso de soluções tecnológicas estáveis e com benefício potencial reconhecido. As infra-estruturas deverão ser correctamente dimensionadas, tendo sempre por objectivo o fornecimento de serviços e conteúdos, isto é, a presença da região na Internet, e não serem um objectivo em si mesmo.

6º- Parcerias– Deverão as regiões digitais estabelecer parcerias, protocolos e acordos com entidades do sistema científico e tecnológico nacional (SCTN), privilegiando mas não se cingindo às entidades da respectiva região, no sentido de avaliar, definir e/ou implementar soluções eficazes para os seus problemas e necessidades.

7º- Localidade –Deverão as regiões digitais privilegiar, na medida do possível e sempre que adequado aos fins em vista, o recurso a serviços de empresas e entidades de carácter tecnológico com fortes ligações à região, tirando partido do tecido empresarial local e fomentando o seu desenvolvimento.

8º- Custos - As regiões digitais deverão privilegiar a adopção de soluções de baixo custo e, sempre que possível e adequado, de código aberto (opensource) e/ou a integração de soluções já existentes com aquele tipo de soluções. Deverão ser cuidadosamente ponderados aspectos relacionados com custos de desenvolvimento, de operação, de manutenção e de evolução de soluções aplicacionais.

9º- Financiamento –Devem as regiões digitais participar activamente na submissão de candidaturas a programas nacionais e regionais de financiamento, tendo em vista a execução dos projectos definidos nos respectivos planos de actividades.

10º - Sustentabilidade –As regiões digitais devem procurar garantir a sua sustentabilidade através do apoio dos seus associados, da rentabilização de infra-estruturas, da prestação de serviços e, ainda, da celebração de contratos, projectos e/ou protocolos com entidades e empresas.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital

As TIC e as Regiões Digitais

Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
10 de Julho de 2009, página 34

As regiões digitais estão na moda. Nunca se falou tanto em novas tecnologias, em redes de nova geração, em fibras ópticas, em banda larga, em Internet móvel, em planos tecnológicos, em portais, em informatização e em desmaterialização. De repente, parece que os fins deixaram de ser importantes e passaram a importar, apenas, os meios. Se está informatizado é bom, se usa novas tecnologias é vantajoso e se tem fibras ópticas é avançado. Certo? Infelizmente, não é necessariamente assim.

Dir-se-ia que quem escreve estas linhas é contra novas tecnologias ou não as conhece adequadamente, que não é um profissional com vinte e sete anos de experiência em tecnologias da informação e comunicação (TIC), que não tem sob sua responsabilidade grandes e modernas infra-estruturas de TIC, que não está a par do desenvolvimento e investigação que se fazem no pais e no estrangeiro nesta matéria. Felizmente, não é esse o caso. Há, apenas, que desmistificar o papel que tais tecnologias – de inquestionável importância e utilidade – podem desempenhar no desenvolvimento local, regional e nacional. Para tal, nada como tentar responder a duas ou três questões simples, em bom Português, acessível a pessoas de todas as áreas e formação, ou seja, a todos os leitores.

A primeira questão que me vem à ideia é a seguinte: o que é uma região digital? Na sua essência, uma região digital não é mais do que uma aproximação colaborativa e concertada à melhoria do fornecimento de serviços, por parte de várias entidades de uma dada comunidade, recorrendo a um leque de tecnologias da informação e comunicação mais ou menos inovadoras.

A segunda questão – e, talvez, a mais importante – é: para que serve uma região digital? Se a questão é natural e simples, já a resposta exige algum trabalho, a julgar pela dificuldade com que várias das regiões digitais que existem em Portugal se deparam em afirmar-se e dar-se a conhecer aos cidadãos. Em última análise, uma região digital deve servir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos por ela abrangidos, em áreas tão importantes como a educação, a saúde, o lazer, a cultura, a ecologia, a sustentabilidade, o turismo, a segurança, o emprego, a informação, a eficácia e eficiência das interacções com os agentes locais, entre muitos outros aspectos. As questões chave são, claramente, a orientação para o cidadão, a utilidade, a procura, a necessidade e os benefícios, e não as tecnologias, que têm sempre que ser encaradas como um meio – certamente inovador - mas não como o objectivo das regiões digitais. Por exemplo, para os residentes numa comunidade sem serviços de saúde especializados não é relevante a tecnologia utilizada para a realização de consultas, diagnóstico ou prescrição remotos, mas sim que tais actos possam ser realizados. Serão estes melhores se forem prestados com recurso às TIC? Obviamente que a sua qualidade dependerá, essencialmente, do profissional de saúde.

A terceira questão é: mas, afinal, não devem as tecnologias da informação e comunicação ser visíveis para que as regiões digitais tenham sucesso? Claramente, não. O papel das TIC é, naturalmente, central para as regiões digitais, mas aquelas só devem ser visíveis para os especialistas, porque são estes que têm que as implantar no terreno, operar e manter. Felizmente que, para guiar um automóvel não precisamos de o construir, de o saber reparar ou de saber como é feito. O mesmo se passa com as TIC e com quem as utiliza. De facto, pode afirmar-se que as regiões digitais serão um sucesso quando os cidadãos se esquecerem de que elas existem e quando a utilização de todo o vastíssimo leque de serviços e vantagens que elas podem oferecer for tão simples que ninguém mais fale em novas tecnologias, redes de nova geração, fibras ópticas, banda larga, Internet móvel, planos tecnológicos, portais, informatização e desmaterialização. É nesse sentido que a Associação Coimbra Região Digital está a trabalhar.


Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital