Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
em 5 de Setembro de 2009
É relativamente frequente ouvir ou ler aqui e ali notícias sobre grandes infra-estruturas de comunicação de dados a instalar em cidades e regiões do nosso Pais. Muitas vezes, a notícia é a quantidade de quilómetros de fibra óptica a instalar ou, ainda, as grandes velocidades e volume de dados que essas verdadeiras ‘auto-estradas’ permitirão. Naturalmente, o leitor menos ligado a estas complicadas questões tecnológicas fica um pouco ‘embriagado’ com tanta Civilização, bem à maneira de Jacinto e de José Fernandes de “A Cidade e as Serras”, do nosso inigualável Eça de Queiroz.
Também muitas vezes – tantas quantas as vezes com que me deparo com essas notícias – me pergunto qual o nível de utilização dessas formidáveis e caras infra-estruturas de TIC (tecnologias de informação e comunicação), onde estão os enormes volumes de dados e conteúdos que as justificam e, por fim, se caberá às regiões digitais o ónus de as concretizar. No fundo a pergunta que faço é se, em termos digitais, queremos a ‘cidade’ pela ‘cidade’ ou se não seria preferível melhorar as ‘serras’ de forma sustentada e harmoniosa.
Naturalmente que a Associação Coimbra Região Digital (ACRD) tem ambições, planos e projectos na área das infra-estruturas de rede. No entanto, o bem português ‘salto no escuro com medo de ficar para trás’ não deve ser desculpa para que não se faça o que deve ser feito: analisar requisitos reais e concretos, tomar decisões sustentadas e planear acções.
Em matéria de infra-estruturas de rede, as regiões digitais deverão funcionar como aconselhadoras e promotoras de soluções, replicando casos de sucesso, validando opções e nivelando desigualdades tecnológicas entre sub-regiões, promovendo, assim, um desenvolvimento solidário. Quais são, então os projectos de infra-estruturas de TIC que fazem sentido e que, portanto, devem ser considerados? Em tão pouco espaço é difícil falar de todos. Destacam-se, no entanto, os seguintes:
• Infra-estruturas de comunicações municipais –sub-projectos no âmbito de cada município, tendo em vista a interligação de edifícios e instalações municipais, nomeadamente de edifícios camarários, juntas de freguesia e, eventualmente, escolas. O objectivo deve ser o de dotar os municípios com meios eficazes de comunicação interna, sempre que ainda não existam, contribuindo de forma eficaz para a melhoria da conectividade interna e do funcionamento dos serviços, e dando resposta a necessidades prementes, já hoje sentidas.
• Infra-estruturas de salvaguarda de dados (back-up e disaster recovery) – Reforço de infra-estruturas regionais de processamento e armazenamento, de forma a que estas possam operar como infra-estruturas de salvaguarda remota de dados dos sistemas municipais existentes. Os benefícios para os municípios são claros, pois podem reduzir custos em termos de soluções de back-up e maximizam a segurança dos dados, através de diversidade geográfica.
• Pontos de acesso sem fios – Aumento do número de pontos de acesso sem fios nos diversos municípios, estendendo a rede já existente. Este aumento traduz-se em benefícios imediatos para a população e visitantes.
• Espaços Internet autárquicos – Reforço dos meios informáticos e do número de espaços para acesso à Internet disponibilizados pelas autarquias. Poder-se-ão estender a juntas de freguesia e a diversos edifícios municipais.
• Projectos de apoio à Internet nas escolas – Apoio às autarquias, no sentido de projectar/disponibilizar/reforçar meios de acesso à Internet nas escolas, complementarmente a outros programas já existentes. Estes projectos terão em vista uma racionalização de meios e redução de custos para as autarquias, estudando as soluções caso-a-caso.
Trata-se de um pequeno leque de projectos que se caracteriza, no entanto, pela exequibilidade e utilidade. Naturalmente que, em termos de infra-estruturas, se poderia ir muito além, mas não deixa de ser verdade que estes ‘pequenos passos’ poderão contribuir de forma decisiva para uma mais verdadeira região digital de Coimbra e evitar “amarguradas ilusões e falsas delícias”.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
Neste blogue encontrará artigos de opinião sobre: * as tecnologias de informação e comunicação (TIC) * o impacto das TIC nas organizações * as TIC e a administração central e local * as TIC na vida dos cidadãos * as TIC nos mais variados ramos da ciência e sociedade (saúde, ecologia, turismo, comércio, etc.)
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quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Os 10 Mandamentos das Regiões Digitais
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
24 de Julho de 2009, página 30
Apesar de constituídas há vários anos, as regiões digitais são, ainda, no essencial, desconhecidas para o cidadão comum. O que são? Para que servem? Qual o seu impacto? Falemos hoje de linhas de orientação estratégica para as regiões digitais. Naturalmente, as que aqui se referem serão aquelas que, em primeiro lugar, dirigem a acção da Associação Coimbra Região Digital (http://www.coimbradigital.pt/), embora, no entender do autor, devam ser aplicáveis a qualquer região digital. Ao dá-las a conhecer ao leitor pretende-se, também, envolvê-lo na estratégia da ACRD, convidando-o desta forma a contribuir para os seus objectivos. Porque são dez e porque são gerais, chamar-lhes-emos os 10 mandamentos das regiões digitais.
1º- Utilidade - A actividade das regiões digitais deve ser orientada para a execução de projectos que conduzam a um claro benefício, impacto positivo e utilidade para os cidadãos. As regiões digitais não existem para se manterem a si próprias, mas sim para servir o cidadão, contribuindo para a melhoria da sua qualidade de vida.
2º- Visibilidade –As regiões digitais devem utilizar as TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) como forma privilegiada para dar acesso a serviços e visibilidade à região, aos seus concelhos, às actividades que aí são desenvolvidas e às pessoas que nela vivem.
3º- Suporte – Deverão as regiões digitais apoiar os municípios e comunidades que delas fazem parte em projectos de natureza inter-municipal e/ou regional e, ainda, em projectos de natureza municipal e/ou local para os quais sejam por aqueles solicitadas. Tanto quanto possível, deverão as regiões digitais funcionar como aconselhadoras e promotoras de soluções, replicando casos de sucesso, validando opções e nivelando desigualdades tecnológicas entre sub-regiões, promovendo, assim, o desenvolvimento solidário.
4º- Projectos – As regiões digitais devem promover projectos de desenvolvimento aplicado e inovação em três grandes áreas: infra-estruturas tecnológicas, serviços/aplicações e conteúdos. A primeira destas áreas é indispensável ao suporte das outras duas. Os serviços/aplicações devem potenciar a interacção entre cidadãos, entidades locais e regiões digitais, de acordo com o princípio da utilidade. Os conteúdos potenciam a visibilidade da região, das suas comunidades e dos cidadãos.
5º - Práticas –As regiões digitais deverão basear a sua actuação num conjunto de boas práticas de TIC, reconhecidas nos sectores público e privado. Para tal, devem recorrer a soluções de TIC testadas e com provas dadas, ou seja, devem fazer uso de soluções tecnológicas estáveis e com benefício potencial reconhecido. As infra-estruturas deverão ser correctamente dimensionadas, tendo sempre por objectivo o fornecimento de serviços e conteúdos, isto é, a presença da região na Internet, e não serem um objectivo em si mesmo.
6º- Parcerias– Deverão as regiões digitais estabelecer parcerias, protocolos e acordos com entidades do sistema científico e tecnológico nacional (SCTN), privilegiando mas não se cingindo às entidades da respectiva região, no sentido de avaliar, definir e/ou implementar soluções eficazes para os seus problemas e necessidades.
7º- Localidade –Deverão as regiões digitais privilegiar, na medida do possível e sempre que adequado aos fins em vista, o recurso a serviços de empresas e entidades de carácter tecnológico com fortes ligações à região, tirando partido do tecido empresarial local e fomentando o seu desenvolvimento.
8º- Custos - As regiões digitais deverão privilegiar a adopção de soluções de baixo custo e, sempre que possível e adequado, de código aberto (opensource) e/ou a integração de soluções já existentes com aquele tipo de soluções. Deverão ser cuidadosamente ponderados aspectos relacionados com custos de desenvolvimento, de operação, de manutenção e de evolução de soluções aplicacionais.
9º- Financiamento –Devem as regiões digitais participar activamente na submissão de candidaturas a programas nacionais e regionais de financiamento, tendo em vista a execução dos projectos definidos nos respectivos planos de actividades.
10º - Sustentabilidade –As regiões digitais devem procurar garantir a sua sustentabilidade através do apoio dos seus associados, da rentabilização de infra-estruturas, da prestação de serviços e, ainda, da celebração de contratos, projectos e/ou protocolos com entidades e empresas.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
24 de Julho de 2009, página 30
Apesar de constituídas há vários anos, as regiões digitais são, ainda, no essencial, desconhecidas para o cidadão comum. O que são? Para que servem? Qual o seu impacto? Falemos hoje de linhas de orientação estratégica para as regiões digitais. Naturalmente, as que aqui se referem serão aquelas que, em primeiro lugar, dirigem a acção da Associação Coimbra Região Digital (http://www.coimbradigital.pt/), embora, no entender do autor, devam ser aplicáveis a qualquer região digital. Ao dá-las a conhecer ao leitor pretende-se, também, envolvê-lo na estratégia da ACRD, convidando-o desta forma a contribuir para os seus objectivos. Porque são dez e porque são gerais, chamar-lhes-emos os 10 mandamentos das regiões digitais.
1º- Utilidade - A actividade das regiões digitais deve ser orientada para a execução de projectos que conduzam a um claro benefício, impacto positivo e utilidade para os cidadãos. As regiões digitais não existem para se manterem a si próprias, mas sim para servir o cidadão, contribuindo para a melhoria da sua qualidade de vida.
2º- Visibilidade –As regiões digitais devem utilizar as TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação) como forma privilegiada para dar acesso a serviços e visibilidade à região, aos seus concelhos, às actividades que aí são desenvolvidas e às pessoas que nela vivem.
3º- Suporte – Deverão as regiões digitais apoiar os municípios e comunidades que delas fazem parte em projectos de natureza inter-municipal e/ou regional e, ainda, em projectos de natureza municipal e/ou local para os quais sejam por aqueles solicitadas. Tanto quanto possível, deverão as regiões digitais funcionar como aconselhadoras e promotoras de soluções, replicando casos de sucesso, validando opções e nivelando desigualdades tecnológicas entre sub-regiões, promovendo, assim, o desenvolvimento solidário.
4º- Projectos – As regiões digitais devem promover projectos de desenvolvimento aplicado e inovação em três grandes áreas: infra-estruturas tecnológicas, serviços/aplicações e conteúdos. A primeira destas áreas é indispensável ao suporte das outras duas. Os serviços/aplicações devem potenciar a interacção entre cidadãos, entidades locais e regiões digitais, de acordo com o princípio da utilidade. Os conteúdos potenciam a visibilidade da região, das suas comunidades e dos cidadãos.
5º - Práticas –As regiões digitais deverão basear a sua actuação num conjunto de boas práticas de TIC, reconhecidas nos sectores público e privado. Para tal, devem recorrer a soluções de TIC testadas e com provas dadas, ou seja, devem fazer uso de soluções tecnológicas estáveis e com benefício potencial reconhecido. As infra-estruturas deverão ser correctamente dimensionadas, tendo sempre por objectivo o fornecimento de serviços e conteúdos, isto é, a presença da região na Internet, e não serem um objectivo em si mesmo.
6º- Parcerias– Deverão as regiões digitais estabelecer parcerias, protocolos e acordos com entidades do sistema científico e tecnológico nacional (SCTN), privilegiando mas não se cingindo às entidades da respectiva região, no sentido de avaliar, definir e/ou implementar soluções eficazes para os seus problemas e necessidades.
7º- Localidade –Deverão as regiões digitais privilegiar, na medida do possível e sempre que adequado aos fins em vista, o recurso a serviços de empresas e entidades de carácter tecnológico com fortes ligações à região, tirando partido do tecido empresarial local e fomentando o seu desenvolvimento.
8º- Custos - As regiões digitais deverão privilegiar a adopção de soluções de baixo custo e, sempre que possível e adequado, de código aberto (opensource) e/ou a integração de soluções já existentes com aquele tipo de soluções. Deverão ser cuidadosamente ponderados aspectos relacionados com custos de desenvolvimento, de operação, de manutenção e de evolução de soluções aplicacionais.
9º- Financiamento –Devem as regiões digitais participar activamente na submissão de candidaturas a programas nacionais e regionais de financiamento, tendo em vista a execução dos projectos definidos nos respectivos planos de actividades.
10º - Sustentabilidade –As regiões digitais devem procurar garantir a sua sustentabilidade através do apoio dos seus associados, da rentabilização de infra-estruturas, da prestação de serviços e, ainda, da celebração de contratos, projectos e/ou protocolos com entidades e empresas.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
As TIC e as Regiões Digitais
Artigo de opinião publicado no diário ‘As Beiras’
10 de Julho de 2009, página 34
As regiões digitais estão na moda. Nunca se falou tanto em novas tecnologias, em redes de nova geração, em fibras ópticas, em banda larga, em Internet móvel, em planos tecnológicos, em portais, em informatização e em desmaterialização. De repente, parece que os fins deixaram de ser importantes e passaram a importar, apenas, os meios. Se está informatizado é bom, se usa novas tecnologias é vantajoso e se tem fibras ópticas é avançado. Certo? Infelizmente, não é necessariamente assim.
Dir-se-ia que quem escreve estas linhas é contra novas tecnologias ou não as conhece adequadamente, que não é um profissional com vinte e sete anos de experiência em tecnologias da informação e comunicação (TIC), que não tem sob sua responsabilidade grandes e modernas infra-estruturas de TIC, que não está a par do desenvolvimento e investigação que se fazem no pais e no estrangeiro nesta matéria. Felizmente, não é esse o caso. Há, apenas, que desmistificar o papel que tais tecnologias – de inquestionável importância e utilidade – podem desempenhar no desenvolvimento local, regional e nacional. Para tal, nada como tentar responder a duas ou três questões simples, em bom Português, acessível a pessoas de todas as áreas e formação, ou seja, a todos os leitores.
A primeira questão que me vem à ideia é a seguinte: o que é uma região digital? Na sua essência, uma região digital não é mais do que uma aproximação colaborativa e concertada à melhoria do fornecimento de serviços, por parte de várias entidades de uma dada comunidade, recorrendo a um leque de tecnologias da informação e comunicação mais ou menos inovadoras.
A segunda questão – e, talvez, a mais importante – é: para que serve uma região digital? Se a questão é natural e simples, já a resposta exige algum trabalho, a julgar pela dificuldade com que várias das regiões digitais que existem em Portugal se deparam em afirmar-se e dar-se a conhecer aos cidadãos. Em última análise, uma região digital deve servir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos por ela abrangidos, em áreas tão importantes como a educação, a saúde, o lazer, a cultura, a ecologia, a sustentabilidade, o turismo, a segurança, o emprego, a informação, a eficácia e eficiência das interacções com os agentes locais, entre muitos outros aspectos. As questões chave são, claramente, a orientação para o cidadão, a utilidade, a procura, a necessidade e os benefícios, e não as tecnologias, que têm sempre que ser encaradas como um meio – certamente inovador - mas não como o objectivo das regiões digitais. Por exemplo, para os residentes numa comunidade sem serviços de saúde especializados não é relevante a tecnologia utilizada para a realização de consultas, diagnóstico ou prescrição remotos, mas sim que tais actos possam ser realizados. Serão estes melhores se forem prestados com recurso às TIC? Obviamente que a sua qualidade dependerá, essencialmente, do profissional de saúde.
A terceira questão é: mas, afinal, não devem as tecnologias da informação e comunicação ser visíveis para que as regiões digitais tenham sucesso? Claramente, não. O papel das TIC é, naturalmente, central para as regiões digitais, mas aquelas só devem ser visíveis para os especialistas, porque são estes que têm que as implantar no terreno, operar e manter. Felizmente que, para guiar um automóvel não precisamos de o construir, de o saber reparar ou de saber como é feito. O mesmo se passa com as TIC e com quem as utiliza. De facto, pode afirmar-se que as regiões digitais serão um sucesso quando os cidadãos se esquecerem de que elas existem e quando a utilização de todo o vastíssimo leque de serviços e vantagens que elas podem oferecer for tão simples que ninguém mais fale em novas tecnologias, redes de nova geração, fibras ópticas, banda larga, Internet móvel, planos tecnológicos, portais, informatização e desmaterialização. É nesse sentido que a Associação Coimbra Região Digital está a trabalhar.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
10 de Julho de 2009, página 34
As regiões digitais estão na moda. Nunca se falou tanto em novas tecnologias, em redes de nova geração, em fibras ópticas, em banda larga, em Internet móvel, em planos tecnológicos, em portais, em informatização e em desmaterialização. De repente, parece que os fins deixaram de ser importantes e passaram a importar, apenas, os meios. Se está informatizado é bom, se usa novas tecnologias é vantajoso e se tem fibras ópticas é avançado. Certo? Infelizmente, não é necessariamente assim.
Dir-se-ia que quem escreve estas linhas é contra novas tecnologias ou não as conhece adequadamente, que não é um profissional com vinte e sete anos de experiência em tecnologias da informação e comunicação (TIC), que não tem sob sua responsabilidade grandes e modernas infra-estruturas de TIC, que não está a par do desenvolvimento e investigação que se fazem no pais e no estrangeiro nesta matéria. Felizmente, não é esse o caso. Há, apenas, que desmistificar o papel que tais tecnologias – de inquestionável importância e utilidade – podem desempenhar no desenvolvimento local, regional e nacional. Para tal, nada como tentar responder a duas ou três questões simples, em bom Português, acessível a pessoas de todas as áreas e formação, ou seja, a todos os leitores.
A primeira questão que me vem à ideia é a seguinte: o que é uma região digital? Na sua essência, uma região digital não é mais do que uma aproximação colaborativa e concertada à melhoria do fornecimento de serviços, por parte de várias entidades de uma dada comunidade, recorrendo a um leque de tecnologias da informação e comunicação mais ou menos inovadoras.
A segunda questão – e, talvez, a mais importante – é: para que serve uma região digital? Se a questão é natural e simples, já a resposta exige algum trabalho, a julgar pela dificuldade com que várias das regiões digitais que existem em Portugal se deparam em afirmar-se e dar-se a conhecer aos cidadãos. Em última análise, uma região digital deve servir para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos por ela abrangidos, em áreas tão importantes como a educação, a saúde, o lazer, a cultura, a ecologia, a sustentabilidade, o turismo, a segurança, o emprego, a informação, a eficácia e eficiência das interacções com os agentes locais, entre muitos outros aspectos. As questões chave são, claramente, a orientação para o cidadão, a utilidade, a procura, a necessidade e os benefícios, e não as tecnologias, que têm sempre que ser encaradas como um meio – certamente inovador - mas não como o objectivo das regiões digitais. Por exemplo, para os residentes numa comunidade sem serviços de saúde especializados não é relevante a tecnologia utilizada para a realização de consultas, diagnóstico ou prescrição remotos, mas sim que tais actos possam ser realizados. Serão estes melhores se forem prestados com recurso às TIC? Obviamente que a sua qualidade dependerá, essencialmente, do profissional de saúde.
A terceira questão é: mas, afinal, não devem as tecnologias da informação e comunicação ser visíveis para que as regiões digitais tenham sucesso? Claramente, não. O papel das TIC é, naturalmente, central para as regiões digitais, mas aquelas só devem ser visíveis para os especialistas, porque são estes que têm que as implantar no terreno, operar e manter. Felizmente que, para guiar um automóvel não precisamos de o construir, de o saber reparar ou de saber como é feito. O mesmo se passa com as TIC e com quem as utiliza. De facto, pode afirmar-se que as regiões digitais serão um sucesso quando os cidadãos se esquecerem de que elas existem e quando a utilização de todo o vastíssimo leque de serviços e vantagens que elas podem oferecer for tão simples que ninguém mais fale em novas tecnologias, redes de nova geração, fibras ópticas, banda larga, Internet móvel, planos tecnológicos, portais, informatização e desmaterialização. É nesse sentido que a Associação Coimbra Região Digital está a trabalhar.
Fernando P. L. Boavida Fernandes
Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra
Presidente do Conselho de Administração da Associação Coimbra Região Digital
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